Dois criadores de experiências culturais com impacto social discutiram a participação do papel da cultura em contextos de conflito. Jailson de Souza, coordenador do Observatório de Favelas, e Dudu de Morro Agudo, fundador do movimento Enraizados, contaram como suas iniciativas mudam a vida das pessoas nas comunidades onde atuam. Pedro Strozenberg, especialista em mediação de conflitos, destacou a importância do encontro para a construção de projetos para o estado.

O fundamento do Observatório de Favelas, com sede no complexo da Maré, é desconstruir a representação, reforçada nos últimos 20 anos, de que a favela é o espaço do caos, o que justificava uma intervenção bélica para a imposição da ordem pelo estado. “Se continuarmos a trabalhar o poder como sinônimo de dominação, nosso único caminho é o controle e o autoritarismo. Nosso desafio é justamente colocar em questão esses conceitos que negativizam o conflito em vez de vê-lo como oportunidade de diálogo. A cultura é fundamental para trabalhar esse imaginário”, justifica. “Ela não é apenas”, prossegue, “instrumento de sociabilidade, só para ocupar a cabeça e evitar a marginalização de jovens, como muitas ongs equivocadamente acreditam”. “Queremos afirmar um projeto de cidade com políticas públicas em que os diferentes sujeitos se encontrem. Aí o Rio de Janeiro vai ser muito mais legal”, concluiu.

O rapper Dudu de Morro Agudo contou como o movimento Enraizados, de redes de comunicação sobre o hip hop, começou sem pretenções sociais, mas aos poucos percebeu o poder que tinha de interferir na realidade do bairro de Nova Iguaçu. “Em 2003, percebemos que já tínhamos constituído liderança na área, tínhamos o poder de aglomerar pessoas de todo o estado, mas não acreditávamos que podíamos mudar coisas que estavam erradas desde o tempo de meu avô. Um dia, me convenci de que tínhamos que nos envolver com as políticas públicas”, contou.

A plateia ganhou voz e compartilhou suas próprias experiências culturais coletivas. “Isso mostra o sentido comum de nosso trabalho. Se não tivermos um projeto comum, não vamos longe. O argumento fundamental é que todos têm direito ao acesso à cultura por serem cidadãos. A ideia de querer impedir a associação ao crime só reforça a hegemonia do controle”, comentou Jailson, francamente apoiado por todos os presentes.

Questionado sobre preconceito, Dudu relembrou de sua própria história: “Na minha família, cultura é coisa de vagabundo”. E sugeriu uma maior distribuição de recursos do estado para que pequenos grupos culturais consigam maior visibilidade.

(texto: Ana Beatriz Duarte/Martinica Digital)

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