A jornalista e mediadora do último debate do Verão da Cultura, Anabela Paiva, disse muito ao anunciar a mesa que iria compor a Rede de Experiências sobre o tema ‘cultura, comunicação e redes sociais’: “Ivana Bentes é um azougue – não pára de inventar” e “Heraldo HB está criando um dos mais inovadores grupos da cultura no Rio de Janeiro” são definições de encaixe perfeito nos dois apresentadores, e o público pôde confirmar isso ao longo da animada conversa que fechou com chave de ouro a maratona cultural no Parque Lage.
Ivana começou o papo descontraído indo direto ao cerne da questão: “Caímos numa rede onde a produção e consumo se universalizam, os meios e a infra-estrutura se universalizam – e agora?”. Dialogando com essa pergunta central, a diretora da Escola de Comunicação da UFRJ defendeu uma visão mais ampla – e completamente nova – para mercados que se abrem hoje em dia. Ivana argumentou: “Vivemos hoje o surgimento de novos circuitos de produção, consumo e circulação dos bens”, e prosseguiu “A produção cultural foi toda pensada na dificuldade de reprodução, na raridade. Toda uma série de ‘produtos culturais analógicos’ estão tendo agora que se adaptar. E quando muda o modelo que era baseado no grande capital, na dificuldade de reprodução, isso vai ter um enorme impacto social”.
“Adaptação” foi uma palavra que teve tanto destaque na fala da apresentadora quanto “novidade”. Ou talvez tanto quanto “mudança”. Foi de mãos dadas com esse espírito de reestruturação que Ivana trouxe à roda temas polêmicos como a necessidade de se rever os direitos autorais ou de se questionar alguns mitos sobre a pirataria: “Todos nós somos taxados de criminosos. Há uma crise dentro do próprio sistema capitalista. A questão é estrutural – é uma nova economia que surge”.
Sem esquecer o papel das políticas públicas em meio a um cenário tão tranformador, Ivana defendeu: “A cultura digital está criando o ‘precariado cognitivo’, e ele também precisa se organizar formalmente, ter uma segurança maior, é preciso ter essa base”, e seguiu “Há hoje um circuito muito mais amplo, a figura do amador-criador, a produção doméstico-industrial com o ateliê no quarto de dormir. Vê-se uma geração de roteiristas, fotógrafos, artistas fora das grandes corporações – é importante que as políticas públicas pensem essa nova realidade econômica”
Discutindo os limites da legalidade e da ilegalidade, Ivana mencionou as oportunidades que surgem e podem ser aproveitadas pelas políticas públicas: “As lan houses são ambientes cognitivos novos que surgem para a juventude da periferia. Depois do ‘puxadinho’ surgiu o ‘plugadinho’, que é a rede de compatilhamento de sinal de internet. Aí se fala: isso não é legal. O que é legal, afinal?”, provocou. E concluiu: “A indústria cultural no modelo fordista era obsoleta. A cultura digital está modificando tudo. Como os mediadores tradicionais da cultura vão agir frente a isso? A questão é: ‘onde vamos colocar o taxímetro?’. Há uma mudança muito grande na rotina de produzir, consumir, experimentar, viver. Discutir isso somente no âmbito do varejo é muito pequeno. A reestruturação é muito maior”.
Enquanto a pesquisadora defendia que as redes sociais são mais eficientes na distribuição dos bens materiais, de música e outros bens culturais, o público percebia em Heraldo HB, o segundo apresentador da Rede, a prova viva da afirmação. O agitador cultural de Caxias, que há 8 anos é um dos protagonistas da cena cultural e de inovação do Rio de Janeiro, explicou: “A internet casou certinho com o que existia no momento na periferia. Antes das redes sociais, os eventos já eram colaborativos: tinham show, poesia, fanzines, e cada um trazia o que podia: eu trazia o som, o outro trazia a xerox, e por aí vai”. E definiu: “A periferia já era colaborativa, porque dependia de várias pessoas; e já era multimídia, porque trazia várias linguagens”.
Aplaudido ao defender que “O Rio é muito mais que a cidade do Rio”, Heraldo pediu atenção para um ponto fundamental: “Temos que incluir os pobres no sistema. Temos que aprofundar as politicas de inclusão no país”, e prosseguiu “É preciso ter políticas públicas pra ampliar a cultura digital pra galera. A lan house é o campinho de futebol”.
Ainda defendendo a maior artiulação centro X periferia, Heraldo pediu: “A gente tem que circular pela cidade, andar”. “Houve um pacto de vários grupos que resolveram re-significar a Baixada Fluminense. Hoje a Baixada ainda tem um estigma violento, mas ela está mais ‘desejada’. Isso mudou por conta desse movimento articulado com a tecnologia, a internet. As redes sociais permitiram que se ganhasse novas armas contra a política do medo”, ponderou. E conclui: “Temos que ter um Rio de Janeiro mais humano, mais verdadeiro. A tecnologia é uma aliada. O Rio pode crescer muito quando tornarmos a coisa mais solidária”.
(texto: Bruna Baffa/Martinica Digital)
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