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Vitória da cultura

Artistas celebram decreto que deu ao prédio da antiga fábrica Bhering o título de Patrimônio Histórico e Cultural do Rio

Matérias 31.07.2012 deixe aqui seu comentário

Eduardo Paes assinou dois documentos que determinam o tombamento e a desapropriação do espaço

Eduardo Paes assinou dois documentos que determinam o tombamento e a desapropriação do espaço  (Crédito: Divulgação)

Ateliê de Ana Holk, na Bhering
Ateliê de Brigida de Murtas, na Bhering
Ateliê de Barrão, na Bhering

No mesmo lugar onde se produzia, décadas atrás, toneladas de balas e chocolates, hoje se faz (e se consome) arte. Dois decretos assinados pelo prefeito Eduardo Paes, nesta segunda-feira, 30/7, garantem que prédio da  Fábrica da Bhering, no Santo Cristo, Zona Portuária do Rio, continue a ser espaço de fervura cultural. Mas os artistas levaram um tremendo susto na última semana. Todos os ocupantes do edifício receberam a notícia de que seriam despejados no prazo de 30 dias, já que o prédio fora leiloado por R$ 3,2 milhões a uma imobiliária para reparar um débito tributário dos seus donos. Paes, no entanto, assinou dois documentos que determinam o tombamento e a desapropriação do espaço, garantindo a permanência dos locatários no endereço.


O centro de criação estabelecido nos 20 mil metros quadrados da antiga fábrica, há mais de dois anos, é conhecido entre os cariocas como um valioso ponto de encontro e de produção de arte. Então reunidos ali 50 artistas e 20 outras pequenas empresas, que, sem qualquer acordo prévio, acabaram transformando o ambiente peculiar em um lugar de criação e de possíveis trocas. Entre as atividades desenvolvidas no local estão ateliês de pintura, escultura, fotografia, performance, videoarte, multimedia, restauração e literatura.


Artistas comemoram a medida de Paes


De acordo com Barrão, um dos nomes que ocupam o espaço, a medida de Paes foi exemplar. “Todos ficaram muito animados com a notícia. Na última semana, quando soubemos da desapropriação pelo oficial de justiça, começamos a nos mover e a conversar com o nosso advogado. A imprensa, tanto do Rio como de São Paulo, se mobilizou e o assunto repercutiu nas redes sociais. Mas a situação parecia ser quase irreversível. Ainda não sabemos que tipo de modelo vai ser instituído pela prefeitura, mas a decisão de Paes foi o primeiro passo para a valorização do nosso trabalho nesse edifício”, desabafa o artista, que, desde a década de 80, desenvolve sua produção a partir da ressignificação inventiva de objetos cotidianos.


Para Ana Holk, a ocupação do edifício pelos artistas se configura em uma ação inédita no país. “O nome dos artistas se fundiu com o nome da Bhering. O espaço acolheu todas essas pessoas que tinham dificuldades em montar seus ateliês por conta dos preços altos dos imóveis do Rio. Em muitos lugares do mundo, o governo apoia os artistas, pagando uma parte do aluguel com o propósito de fomentar a cultura. Isso poderia também acontecer aqui”, comenta a escultora, que também desenvolve instalações em grande formato.  


Segundo a restauradora de obras de arte Brigida de Murtas, também locatária do imóvel, a Bhering foi, aos poucos, se transformando em um espaço único de convivência profissional e amizade. “Depois do susto, estamos esperando de braços abertos o futuro da Bhering. Aqui, temos muitos artistas engajados e atuantes que, com a força de galeristas, curadores e amigos da casa, conseguiram atingir uma comoção total da mídia. A revitalização do Porto Maravilha não podia excluir os artistas da Bhering”, acrescenta a artista, que também customiza móveis e objetos, pinta e transforma paredes com sua arte.


Os ocupantes da fábrica garantem a participação do espaço no roteiro do evento ArtRio, Feira Internacional de Arte Contemporânea que acontece entre 12 e 16 de setembro. Outras atividades da agenda do prédio, como os encontros que A Bolha Editora promove aos sábados no terraço, com apresentações de música e divulgação de livros de arte, seguem mantidas.


“A arte contemporânea brasileira está em franca ascensão. Todos os olhares estão sobre nós, e precisamos dar conta do recado. Temos consciência da ação pioneira que a nossa reunião artística desempenha na Bhering e do nosso papel cultural na região”, decreta Ana. 


A dívida


No ano passado, o edifício, que estava em dívida com a União, foi arrematado em leilão pela Syn-Brasil Empreendimentos Imobiliários. Desde então, a proprietária do imóvel vinha tentando contrapor-se a venda, sem sucesso. Depois de manifestar-se no Twitter em favor dos artistas residentes do edifício da Bhering, Paes firmou os decretos de tombamento e de desapropriação, publicados no Diário Oficial desta terça-feira, convertendo o prédio em Patrimônio Histórico e Cultural da cidade, além de agora pertencer à prefeitura– os empresários que adquiriram o espaço devem ser indenizados.


Para discutir outras pautas de cultura na cidade, como ocupação cultural dos espaços públicos e políticas de convívio, artistas, ativistas e pesquisadores marcaram uma reunião aberta, nesta quinta-feira, às 19h, na Escola de Comunicação da UFRJ, na Praia Vermelha. Todos estão convocados. 


Colaboração de Camila Lamha



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