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Um apelo pela arte

Sem recursos, ONG Orquestrando a Vida, de Campos, pode encerrar suas atividades ainda este mês

Matérias 08.05.2012 deixe aqui seu comentário

Nesta quara-feira, os músicos de todas as orquestras e bandas do projeto participam de um ensaio aberto

Nesta quara-feira, os músicos de todas as orquestras e bandas do projeto participam de um ensaio aberto  (Crédito: Divulgação)

No último sábado de abril, o anúncio da crise da ONG Orquestrando a Vida, de Campos dos Goytacazes, feito pelo maestro Jony William, idealizador e diretor da organização, abalou os ouvidos de quem estava presente no concerto do ginásio do Sesc do município. Criada através de uma parceria entre o Centro Cultura Musical de Campos e a Fundação Musical Simon Bolívar – o reconhecido “El Sistema” da Venezuela –, a fundação e escola de música já formou milhares de jovens, a maior parte da perifeira campista, ao longo dos seus 16 anos de história. Atualmente, o projeto atende a 750 crianças e adolescentes, divididos em 30 corais, duas bandas sinfônicas e seis orquestras sinfônicas – a principal delas é a Orquestra Sinfônica Jovem Mariuccia Lacovino.


Pioneira no país a romper o padrão europeu de aprendizado, a ONG agitou o ensino de música ao introduzir a técnica de grupo, que foca na estimulação do aluno - assim que o jovem entra, escolhe um instrumento e já começa a tocar. Aliando a contrapartida social ao compromisso artístico, o projeto já levou seus músicos, sempre a convite, a países como Bolívia, Colômbia, Portugal, Espanha e EUA, onde, em 2011, a Mariuccia Lacovino fez uma temporada de sete apresentações, incluindo um espetáculo na Carnegie Hall, uma das casas mais concorridas de Nova York. 


Tragédia social e artística


Para Jony William, o encerramento das atividades da Orquestrando a Vida seria uma catástrofe cultural para a cidade de Campos. “Estamos sem verbas há dois meses. Se não conseguirmos apoio do empresariado ou do poder público, vai ser impossível continuar funcionando. Aproveitei a ocasião do concerto no ginásio do Sesc de Campos, que, entre músicos, familiares e espectadores, reuniu mais de 1,5 mil pessoas, para dar a palavra e anunciar a decisão de paralisação dos nossos projetos caso nenhuma saída seja encontrada”, conta o maestro.   


Jony William também destaca a importância da ONG como patrimônio cultural do município do Norte do Rio de Janeiro. “O projeto dá nome à cidade, dá status cultural a Campos. Isso porque temos um dever social, mas também um compromisso artístico com a comunidade. As nossas crianças têm aula todos os dias, assim como em uma escola comum. O momento de crise é uma verdadeira agonia para todos os moradores”, ressalta.


O maestro ainda explica como estão sendo organizadas as manifestações e ações de protesto nesse momento de risco. “Os jovens estão nas ruas e nos sinais com pulseiras e faixas de protesto. Vamos fazer um velório simbólico usando um case de violoncelo e passear pelas ruas da cidade, fazendo uma carreata em direção à Praça São Salvador. Na quarta-feira, 9/5, à noite, todas as orquestras vão fazer uma paralisação e, se for preciso, iremos montar acampamento na praça. Vamos lutar de todos os jeitos, mas o nosso prazo vai até sexta-feira desta semana. Se nada acontecer, vamos parar”, acrescenta.


Nesta quara-feira, 9/5, os músicos de todas as orquestras e bandas do projeto participam de um ensaio aberto com a presença de integrantes e parceiros da ONG. Se, nos próximos dias, a fundação não tiver nenhuma boa resposta, a Orquestra Mariuccia Lacovino terá que cancelar a sua participação em concertos nacionais, como os festivais de inverno de Nova Friburgo, Petrópolis, Juiz de Fora e Vale do Café, e em eventos internacionais, como os convites para novas turnês nos EUA, Espanha e Colômbia.


“Em todo o programa, somos seis maestros e 40 professores e monitores formados pela escola. Todos os músicos tocam com prazer e amam o que fazem com uma paixão violenta. Somos considerados pelo reconhecido ‘El Sistema’ o seu maior núcleo fora da Venezuela. Queremos continuar crescendo. Temos comprometimento técnico e artístico, além de muita vontade de fazer”, reforça Jony William.


Colaboração de Camila Lamha



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