

Por motivos de força maior, a CASA DE CULTURA LAURA ALVIM estará fechada durante o Carnaval. Será reaberta na quarta-feira de cinzas com todas as suas atividades culturais.
18/02/2012
O longa-metragem português Tabu, feito em coprodução com Brasil, Alemanha e França, venceu prêmio da crítica no 62º Festival de Berlim. O ator catarinense Ivo Müller é protagonista.
17/02/2012
Durante o Carnaval a Casa de Cultura Laura Alvim estará com o funcionamento parcial: apenas os cinemas, a livraria e o café estarão abertos. A galeria de artes e os teatros estarão fechados.
17/02/2012
Nova turnê do cantor Bob Dylan vai chegar ao Brasil. O astro começa série de shows pelo Rio de Janeiro, no Citybank Hall, no dia 15 de abril. Venda de ingressos começa a partir do dia 5 de março.
16/02/2012
Um acervo para manipular à vontade
A pesquisadora carioca Magda Modesto tem uma das maiores coleções de títeres do país
Matérias 20.07.2010 deixe aqui seu comentário
Sentada no sofá de sua sala, Magda Modesto, 84 anos, tem no colo Ravana, o rei raivoso da mitologia hindu, e a cearense Quitéria, lábios muito vermelhos e “cara de Jesus Cristo”. Vez ou outra, maneja com delicadeza um dos dois personagens, entoando, para cada um deles, uma voz característica. Ou então interrompe a entrevista para, em tom sisudo, pedir a Quitéria que sossegue, ou a Ravana que tenha um pouco mais de paciência.
Magda é provavelmente a mais reconhecida especialista em títeres — não ouse chamá-los “bonecos” — do país, e proprietária de uma das maiores coleções deles. No seu apartamento, em Ipanema, acolhe cerca de 400 peças, originárias de diversas regiões brasileiras, sobretudo o nordeste, e de países como Índia, China, Tailândia, Turquia, Mali e Camboja. Isso sem contar os inúmeros bonecos que decoram os ambientes de sua casa, e que, estes não, não são títeres.
“São bonecos, apenas. ‘Boneco’ implica o pensamento de uma forma antropomórfica [semelhante ao homem]. Já o títere é um personagem. E por isso pode ser qualquer coisa: até este tapete”, explica, serenamente, apontando para o chão.
É do mesmo jeito sereno, aliás, que ela concilia o encadeamento didático com o humor rápido, ferino. Muito semelhante ao dos personagens que habitam seus baús. “Os títeres têm duas facetas: a da fantasia e a da análise social. São capazes de denunciar uma série de coisas, provocar a reflexão. Falam pouco, mas têm a fala contundente. Tocam na ferida”, define, para em seguida esclarecer: “Eu não trabalho com títeres. Eu me encanto com eles.”
À mostra
O verbo “encantar-se” abriga ao menos 25 anos de dedicação à arte das formas animadas. Magda não é intérprete — pelo menos não publicamente —, porém é uma das maiores divulgadores da cultura titeriteira no país. Professora de História do Teatro de Títeres, de Animação e de Educação Através do Teatro, foi presidente da Associação Brasileira de Teatro de Bonecos e membro do Comitê Executivo da Union Internationale de la Marionnette (Unima). Foi ainda olheira — jargão para quem descobre novos talentos e garimpa companhias de diferentes procedências — e consultora de diversos espetáculos. É dela, por exemplo, a assessoria em animação e adereços da antológica peça A mulher que matou os peixes, com interpretação de Zezé Polessa para o texto de Clarice Lispector.
Mas Magda gosta mesmo é de expor o seu acervo. “Não criei minha coleção para possuir. Não é para guardar. É para expor, para divulgar”, afirma a dona de um currículo que inclui a curadoria e a montagem de mostras em países como Estados Unidos, França e Espanha. “Fico triste quando não consigo fazer exposições.”
Por isso, nestes meados de 2010, Magda está feliz. Acaba de voltar de Florianópolis, onde levou parte de seu acervo para uma mostra no 4º Festival Internacional de Teatro de Animação. Antes, esteve em Belo Horizonte, com a exposição Índia, Berçário dos Títeres, parte do Festival Internacional de Bonecos — que, aliás, oferece o Prêmio Magda Modesto, uma das mais importantes láureas para artistas do teatro de animação do país. A turnê pelas duas cidades, em junho, lhe deixou como legado um torcicolo e dezenas de bonecos para reorganizar nos seus devidos baús. Ela não se importa: organiza todos com calma, enquanto conversa com eles, ou se deixa perder em suas próprias conversas. Afinal, Magda garante, os títeres dialogam entre si: “Batem muito papo. São perigosos.”
Gênese no pão
Carioca de Santa Teresa, a pesquisadora começou sua história com o teatro de animação, curiosamente, à mesa de refeições, ainda durante a infância, por meio de um peculiar hábito gastronômico da família. “Minha mãe obrigava que eu e meus irmãos tirássemos o miolo do pão antes de comê-lo. Com ele, fazíamos formas diversas, bichos e objetos, que encenávamos sobre a toalha.”
O primeiro títere de seu acervo foi presente de uma prima. Um João Redondo com a cara de couro. Depois, foi reunindo as novas peças “ao acaso”, em antiquários ou com os próprios bonequeiros. Afinal, como Magda gosta de dizer: “Não tiro os personagens da mão de titereiros.” Além disso, garante que são os títeres que a escolhem, e não vice-versa. “É como um par de sapatos. São eles que te escolhem, não são?”, compara, brincalhona.
Dona de uma memória prodigiosa, ela é capaz de citar de cor os nomes de todos os seus 400 bonecos, bem como a sua procedência. “É fácil reconhecer a autoria de um títere pelo formato de suas mãos e pelo tecido da roupa. Tenho diabo e donzela vestidos com o mesmo estampado.”
Apesar de suas peças serem feitas para o uso em diferentes técnicas do teatro de animação — são, por exemplo, de luva, de linha ou de manipulação direta —, Magda garante que a estética do manuseio é o que menos importa. “Teatro de animação não é artesania”, dispara. “A artesania está a serviço do teatro de animação, assim como a música. A interpretação é que é o mais importante. Porque o teatro de animação é, antes de tudo, teatro.”
Conselheira generosa — e rigorosa — para as jovens companhias, Magda aponta a falta de curiosidade como o principal obstáculo para o fortalecimento artístico dos grupos nacionais. “Esta é uma área que não se estuda na faculdade. Ao mesmo tempo, é uma área que exige muito estudo. A criatividade é o melhor método que existe para a criação.” E justifica a sua escolha apaixonada: “Com a animação teatral você se sente maior, se sente crescer. Assume diferentes personagens e assim toma conhecimento do que seja a vida.”
Colaboração de Juliana Krapp
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