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10/05/2013


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Os ruídos e suas possibilidades

Mostra na EAV apresenta performances inspiradas na música concreta

Matérias 15.10.2010 deixe aqui seu comentário

O francês Pierre Schaeffer, que criou a música concreta

O francês Pierre Schaeffer, que criou a música concreta  (Crédito: Reprodução)

Ser radialista na França ocupada pelos nazistas não era exatamente um emprego dos sonhos. Mas o francês Pierre Schaeffer fez o que pôde. Disseminou mensagens em código, por exemplo. Fora a atuação na resistência, fez experimentos como a interseção entre o cinema e o rádio, organizou ateliês de interpretação e lançou-se a reflexões sobre as possibilidades do som. Até que, no fim dos anos 50, teve o insight: e se acrescentasse ruídos diversos – naturais, industriais e afins – à composição musical? Nascia aí a chamada “música concreta”: aquela que captura sons do meio ambiente, modifica-os e os transforma em música. Trocando em miúdos: a precursora dos sons eletrônicos e sua cultura, e que hoje é conhecida também como eletroacústica.

“Schaeffer a batizou de música concreta porque não partia da notação, que era para ele algo muito abstrato”, explica o compositor e produtor musical Rodolfo Caesar, que foi aluno do francês. “O concreto representa algo que cresce em conjunto. Significa que a música vai crescendo ao longo de um processo, e que esse processo envolve a escuta permanente”.

Sessenta anos depois, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV) sedia um evento que presta homenagem às ideias de Schaeffer e aos seus desdobramentos. O ciclo Arte Sonora, organizado pela Sala Cecília Meirelles, apresenta, desta sexta (15) até domingo (17), sinfonias diversas, performances de poesia sonora e trabalhos audiovisuais. O ponto alto é a execução da Sinfonia para um homem só, obra-prima de Schaeffer e Pierre Henry, no sábado. Pela primeira vez, ela será interpretada ao vivo, com músicos no palco. Em geral, a sinfonia é apresentada de forma acusmática, ou seja, sem a performance de intérpretes. Isso porque, na sua versão original, a sinfonia, gravada numa fita magnética, era reproduzida em alto-falantes. Afinal, não reconhecer a origem do som fazia parte do processo.

Ruídos de diferentes origens

Desta vez, porém, o compositor José Augusto Mannis, também ex-aluno de Schaeffer, decidiu convidar outros musicistas a tentarem reproduzir, ao vivo, a sinfonia e seus ruídos. Ele próprio transcreveu as partes cabíveis de notação da música. Aos convidados coube inventar formas de se aproximar dos ruídos da gravação original. Por isso, a sinfonia ouvida na EAV terá sons de vozes, de um piano de brinquedo e de um megafone, entre outros.

“A música concreta libertou e emancipou o ruído, é essa a sua grande contribuição”, conta Caesar, que faz a curadoria do evento. Na prática, Schaeffer captava sons microfonicamente – a passagem de um trem, por exemplo -, gravava-os num toca-discos e partia para uma inédita bricolagem: cortava, emendava, reproduzia de trás para a frente. Uma experiência que hoje poderia ser traduzida pelo aportuguesado verbo “samplear”. “DJs também utilizam ruídos, sons não-instrumentais. Mas eles criam músicas para a pista, enquanto a música concreta é feita para salas de concerto. O que liga a discotecagem ao trabalho de Schaeffer é o uso de diferentes tecnologias para influenciar o som”, esclarece.

A mostra Arte Sonora, porém, não apresenta experimentos exclusivos do som. A maioria das performances transita entre diferentes áreas. “São formas artísticas que não pertencem diretamente aos troncos nos quais costumamos dividir a arte, como música, cinema, artes cênicas. São produções que não podemos encaixar em definições rígidas”, comenta o curador.

É o caso da apresentação que abre a mostra, nesta sexta, quando o Duo N-1 vai lançar mão de um arsenal de fontes sonoras das mais diversas procedências, captando-as e processando-as ao vivo. Simultaneamente, vão misturá-las a fragmentos de vídeo. Em seguida, Michelle Agnes e Thomas Rohrer revivem, em estilo próprio, a presença musical que costumava acompanhar, ao vivo, os filmes mudos do passado. Só que aqui eles usam piano preparado, rabeca e saxofone. Na tela, Film (EUA, 1965), com roteiro de Samuel Beckett, Assalto (Alemanha, 1921), de Ernö Metzner, e Rã-kai (Brasil, 2010), de Eliane Caffé.

No domingo, último dia da mostra, apresentam-se artistas que trabalham com o processamento em tempo real de som e imagem e com poesias sonoras.

Saiba mais em programação cultural.


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