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Machadinha: Sonho feito realidade

Comunidade de descendentes de escravos brilha em Quissamã, interior do Estado do Rio de Janeiro

Matérias 22.04.2010 deixe aqui seu comentário

Casa de Artes de Machadinha

Casa de Artes de Machadinha  (Crédito: Leonardo de Vasconcellos Silva)

A Fazenda Machadinha parece um espaço onírico, que levanta histórias contadas de boca a boca ao longo dos anos, sobre a perseverança dos negros escravizados pelos senhores de engenho do hoje longínquo Brasil Império. Afinal de contas, é notório o simbolismo que a comunidade encerra. Naquele pedaço de chão, pertencente ao município de Quissamã, o tempo dobrou a História, lançou ao chão a Casa Grande e soprou para longe a família Carneiro da Silva, do Visconde de Ururahy, que ali um dia habitou. Arruinado, o pavilhão apenas faz projetar sobre as senzalas a sombra daquelas poucas paredes que ainda teimam em ficar de pé, comprovando a longevidade e firmeza das moradas ancestrais, que, a poucos metros de distância, anunciam a quem chega a identidade dos moradores: a oitava geração de descendentes dos escravos que, um dia, bombearam, à força de muitos braços, vida pelos sulcos lavrados nas terras da Fazenda Machadinha.

Quissamã ou Kissama?

A história de Machadinha, obviamente está inserida na história de Quissamã e, no que tange à presença dos negros africanos, há nova interseção, cujo princípio reside em um episódio no mínimo curioso.

— "Em 1627, os colonizadores portugueses conhecidos coletivamente como Sete Capitães chegaram à região próxima à Lagoa Feia e receberam a posse das terras entre Macaé e o Cabo de São Tomé, que lhes foram doadas por Martin de Sá. Sete anos mais tarde, ao retornarem à região, encontraram um negro que vivia entre os índios. Interpelado a respeito do modo como chegou ali, ele se disse originário de Kissama, em Angola. Porém, como lhe foi feito um interrogatório muito pormenorizado, ele ficou com medo de ser aprisionado e fugiu. Ainda assim, a partir daí que a região, próxima à Lagoa Feia, passou a ser chamada Quissamã, em uma corruptela do nome do local de origem do angolano" — conta o historiador Leonardo de Vasconcellos, que embarcou no projeto a convite do fotógrafo Wellington Cordeiro.

De acordo com Leonardo, a experiência marcou os Sete Capitães pela improbabilidade, já que, então, os negros ainda não haviam sido introduzidos ao panorama social local.

— "Na época, a visão de um negro não era comum na região. Quem os trouxe para cá foi o general Salvador Corrêa de Sá e Benevides, fundador da vila de São Salvador de Campos dos Goytacazes, após ajudar a libertar Angola dos holandeses. Foi a partir de então que ele começou a trazer navios carregados de escravos como um presente para a região onde estamos: Campos, Macaé, Quissamã e redondezas. Porém, embora essas terras tivessem sido doadas aos Sete Capitães, dos quais ora restavam apenas dois, a posse lhes foi tirada por Portugal, ao passo que estavam sem recursos para desenvolvê-la, e entregue a Benevides. Espertamente, o general pediu as terras não só para si, mas, também, para os jesuítas e os beneditinos. Ou seja, colocou a Igreja junto para se resguardar e ter o apoio do rei em relação à doação" – conta.

Há um consenso entre os estudiosos da História da região a respeito do fato. Tanto que, com o início do trabalho de transformação do pobre conjunto de senzalas de Machadinha — instalado em terras que passaram à posse da Usina de Quissamã e pertencem atualmente ao município, tendo sido desapropriadas pelo poder público em 2003 — em um complexo cultural, um grupo de profissionais foi especialmente selecionado para ir a Kissama, localizada na província do Bengo, ao sul do rio Kwanza.

Além de Leonardo e Wellington, o grupo contava, ainda, com a própria presidente da Fundação Cultural de Quissamã, a primeira-dama do município, Alexandra Moreira, e tinha a missão de coletar não apenas material que pudesse trazer pistas acerca das origens daquelas pessoas que lá residem hoje, como para resgatar “as referências seculares”, como conceitua o professor e pesquisador campista Orávio de Campos, responsável por um dos artigos que compõe o livro Machadinha: Origem, história e influências, organizado por Leonardo.

— "O trabalho foi feito com tal profundidade e seriedade, que chegamos a investigar in loco a origem do negro que saiu de seu país e veio para o Brasil dar nome a Quissamã. Levantamos documentos sobre o tráfico negreiro, vistamos locais de importância histórica, tiramos várias fotografias do povo angolano hoje e conhecemos Kissama, ciceronianos e guiados, respectivamente, por Januário e João Saldanha" — afirma o pesquisador.

Reforma geral:Dos conceitos à senzala

Compostas pelo que restou da casa grande, um velho armazém, uma pequena capela erguida em louvor a Nossa Senhora do Patrocínio no longínquo ano de 1833 e o conjunto de senzalas, as ruínas da Fazenda Machadinha foram definitivamente tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 1979. Entretanto, muito embora fosse, desde então, considerada patrimônio histórico do Estado do Rio de Janeiro, o quadro era, até 2003, desolador.

— "Quando conheci Machadinha a fazenda estava abandonada e em péssimo estado. As pessoas estavam esquecidas morando em condições péssimas. Era ruim ver aquela situação, não só pelas pessoas, mas também pelo lugar que, na medida do possível resistia, desde os tempos dos barões" — rememora Wellington Cordeiro, um entusiasta de Quissamã e Machadinha, tanto que costuma ser chamado embaixador daquela terra.

De acordo com Leonardo Vasconcellos, mesmo a sobrevivência no local era difícil e as oportunidades de emprego no seio da comunidade, poucas.

— "Aqueles que permaneciam em Machadinha costumavam ser funcionários da prefeitura ou da fazenda no corte de cana, na produção do açúcar, ou em uma lavoura familiar. O meio era a agricultura, aquilo que era possível naquele lugar. Alguns eram maquinistas ou foguistas de trem, ou, então, possuíam um pequeno comércio. Essas eram as formas de sobrevivência deles" — conta.

Entretanto, a percepção do potencial apelo turístico de Machadinha moveu a municipalidade no sentido de torná-la não tão somente um atrativo local, mas uma comunidade que pudesse prosperar por conta própria. E para isso, seria necessário restaurar todo o conjunto.

— "Todavia, como as senzalas são tombadas pelo Inepac, nenhum projeto poderia ser feito sem uma aprovação do órgão. Assim, foi feito um projeto que propôs a ampliação das senzalas, que não são unidades habitacionais de grande porte, mas que não alterasse seu aspecto e volumetria" — expõe Leonardo, revelando a solução encontrada. — "Foi feito um anexo, na forma de um corredor aberto,embora coberto, como se fosse uma varanda. Ali os moradores têm cozinha, banheiro e um novo quarto, além da outra parte que já existia originalmente como senzala."

Complexo Cultural

Para além da geração de conforto, entretanto, o projeto de restauração e ampliação contemplava, ainda, a criação de um lugar que, ao mesmo tempo em que fornecesse ao povo de Machadinha melhores condições de vida e trabalho, funcionasse como um baluarte da cultura escrava local e que tornasse sua história algo passível não só de ser ouvido, mas observado e mesmo degustado, em um jogo sinestésico que une as cores e formas do artesanato, os aromas e paladares da comida típica e os passos e sons exóticos do jongo, dança de origem negra praticada na região.

Surgiu, dessa forma, o Complexo Histórico Cultural Fazenda Machadinha, que compreende, também, o Espaço Memorial de Machadinha, no qual são exibidas fotografias e peças de arte e artesanato de temática relacionada, e a Casa de Artes Machadinha, onde os visitantes podem conferir, todos os sábados, os mais variados pratos do projeto Raízes do Sabor, que resgata receitas de origem africana.
Construído onde antes era o antigo salão comunitário, o Espaço Memorial de Machadinha procura estabelecer uma integração entre o trinômio África, Brasil do século XIX e Machadinha.

— "Tivemos a idéia de colocar, na parte de cima da sala, fotografias de Debret, Rugendas, Alberto Henckel e Christiano Júnior. Junto delas, colocamos imagens que produzimos em Angola e fotos tiradas pelo Wellington em Machadinha, buscando criar uma integração entre essas três realidades. Falamos, ali, também, de questões como o sincretismo religioso e cultura africana. Assim, é possível ver lá, tecidos, imagens e máscaras africanos. Fizemos ainda um documentário sobre essa viagem a Angola, que é exibido ali. Assim buscamos depositar no Espaço Memorial tudo o que é referência à cultura negra, de forma que os negros mantenham sua história e compreendam o valor que as pessoas dão à sua história."

E se o Espaço Memorial é o baú onde se encontra guardada a história do povo de Machadinha, a Casa de Artes é onde sua cultura pulsa, mais viva que nunca. E claro, com tudo administrado pelos próprios descendentes de escravos, que, ao fim das reformas, receberam o título de propriedade das senzalas, passando a serem seus legítimos donos.

— "A Casa de Artes vive em um sistema de auto-gestão. Tudo o que é feito ali é feito em comum acordo. E assim como é na Casa de Artes, é no resto. A comunidade define aquilo que é interessante para ela ou não" — explica o pesquisador, lembrando como exemplo desse método de gerência o comércio da produção artesanal local. — "Há uma linha de artesanato produzida pelas pessoas de Machadinha que envolve diversos materiais, entre elas, a fibra de coqueiro, abundante na região, visto que o município de Quissamã é o maior produtor de água de coco do Estado do Rio de Janeiro. Existem workshops para que os moradores participarem da produção. Tudo é feito no sentido de possibilitar uma auto-gestão a essa comunidade, que conta hoje com 47 famílias e um quantitativo final que ultrapassa 200 pessoas."

Utilizando o espaço onde funcionava a cavalariça da fazenda, local onde ficavam guardados tudo o que era necessário para se deslocar no século XIX, como charretes e carroças, a Casa de Artes serve, também, de palco a outras manifestações.

—"É na Casa de Artes em que o canto, a dança e a gastronomia têm espaço. Sessões de jongo e o fado, além de noites de degustação de pratos típicos, dividem espaço com apresentações sazonais de chorinho e samba" — diz Leonardo, que reafirma o carisma do local: — "Todos saem de lá entusiasmados, emocionados e satisfeitos, pois essas são coisas que nunca ninguém espera encontrar em uma cidade do interior, ou mesmo uma fazenda, como aquela. O astral é muito interessante. Não há vez que eu vá até lá que eu não saia emocionado, pensando que aquele é um exemplo de um Brasil que deu certo, de uma proposta cultural que vingou."

Apaixonado, Wellington faz eco.

— "Acho um exemplo de resistência pouco existente em outros lugares do país. Fico imensamente feliz em ver o resultado do trabalho realizado em Machadinha. Cada detalhe foi feito com muito zelo, trabalho e compromisso. Pra saber o que estou dizendo, só visitando o local e se deixar maravilhar com a beleza do lugar e da sua história. História que não terminou".


Colaboração de Marcos Curvello



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