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16/05/2013


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14/05/2013


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Jogo de cena

O documentarista Eduardo Coutinho revela altos e baixos da carreira com seu humor negro habitual

Matérias 24.04.2012 deixe aqui seu comentário

Eduardo Coutinho e a presidente do MIS, Rosa Maria Araújo

Eduardo Coutinho e a presidente do MIS, Rosa Maria Araújo  (Crédito: Vânia Laranjeira)

Em 1984, o filme de abertura do primeiro Rio Cine Festival, que depois se transformaria no Festival do Rio, foi o documentário Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho. Com 20 minutos de projeção, ouviu-se o grito de palavrão do diretor: tinham trocado a ordem dos rolos. Foram 20 anos até o filme ficar pronto e, nem no dia da estreia, Coutinho pode suspirar aliviado. O trabalho, alçado à obra-prima do gênero, é considerado também a marca de Coutinho e, por isso, foi o protagonista da edição desta quarta-feira, 25/04, do projeto  ‘Depoimentos para a posteridade’, organizado pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, vinculado à Secretaria de Estado de Cultura, que teve o cineasta como convidado. Participaram do bate-papo de quase quatro horas os diretores Eduardo Escorel, João Salles e Zelito Vianna e a pesquisadora Consuelo Lins.       
 
Este filme, que ganhou inúmeros festivais nacionais e internacionais, marcou o reencontro de Coutinho com o cinema nos anos 80, depois de se dedicar à profissão de redator no Jornal do Brasil e à de diretor do Globo Repórter. “Foi uma obsessão, casamento foi para o brejo, eu só vivia para terminar o Cabra, só pensava nisso”, confessa o cineasta de 79 anos.         

Segunda produção do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE), o filme é uma narrativa semidocumental da vida de João Pedro Teixeira, um líder camponês da Paraíba, assassinado em 1962. Foi interrompido em 1964, em razão do golpe militar. "Só se salvou porque já tínhamos enviado todo o material para o Rio". Parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo. As filmagens recomeçaram 17 anos depois.    


Trajetória incomum    

Mas antes de Cabra marcado para morrer, Coutinho já tinha muita história para contar. Ele nasceu, em São Paulo, de família "aristocrática decadente" e sua primeira lembrança de cinema é um pequeno trauma: aos 8 anos, se perdeu dos pais em uma sala lotada depois de assistir a Pinóquio.  "Acabamos nos sentando separados porque o cinema estava cheíssimo. E não sei o que foi, aquela história da baleia me deixou horrorizado, e a situação só piorou porque eu não encontrava os meus pais na saída", lembra.        

O paulistano cursou direito até o segundo ano, período em que "só colava", mas acabou entrando no mundo do cinema, em 1954, ao participar de seminário promovido pelo Masp e dirigido por Marcos Marguliès, reconhecido nome do ramo. Antes disso, tinha paixão pelo melodrama. Em 1957, ganhou US$ 2 mil no programa Dobrou ou nada, da TV  Record, e viajou para Moscou, Praga, Londres e Paris. Acabou iniciando estudos no Institut des Hantes Études Cinématographiques (IDHEC), na capital francesa, onde permaneceu até 1960. 

"O curso era uma droga, tinha professores muito ruins. Mas foi nessa época em que vi grandes filmes no cinema. Comprava um croissant de queijo e via três sessões seguidas", descreve.      

Na volta ao Brasil, fez amizade com o pessoal do teatro paulista, como Antunes Filho, Antonio Abujamra e Augusto Boal, mas decide se mudar para o Rio de Janeiro, onde entrou para a turma do Centro Popular de Cultura (CPC) da Une: "mas nunca fui militante", afirma. A partir da integração com esse grupo,  ele participa do seu primeiro trabalho como cineasta: foi gerente de produção do longa-metragem de episódios Cinco Vezes Favela.  A segunda missão no ramo entrou para a história, foi justament Cabra marcado para morrer

Com a ditadura e o nascimento dos filhos, Coutinho vai trabalhar em outras áreas. No Globo Repórter, nos anos 70 e 80, realizou ‘reportagens de arte’ como Seis dias de Ouricuri (1976), O pistoleiro da Serra Talhada (1977), Theodorico, O imperador do sertão (1978) e Exu, uma tragédia sertaneja (1979). Theodorico, a história de um dos últimos coronéis nordestinos, Theodorico Bezerra, narrada pelo próprio, entrou para a história da televisão brasileira. 

"Com Theodorico, percebi que deveria ter feito documentário desde criança. Senti um prazer extradordinário. Naquela época, a gente costumava passar reportagens de cerca de 10 minutos, mas eu não queria cortar aquilo de jeito nenhum. Chorei à beça. Eram 35 minutos e a gente convenceu o Armando Nogueira (responsável pela implantação do jornalismo na TV Globo) a assistir ao programa. Ele disse: 'vai ao ar!' e ainda deu uma garrafa de uísque à equipe."  

Eduardo Coutinho renasceu para o cinema duas vezes. A primeira, quando retomou as filmagens de Cabra marcado para morrer, a segunda, quando passava por problemas financeiros e já estava no ostracismo. Mas marcou a trajetória do cinema brasileiro mais uma vez, quando fez Santo forte (1999), que trata da relação de moradores da favela Vila Parque da Cidade, na Zona Sul do Rio, com algumas religiões, como católica, evangélica e umbanda. Em 2012, o autor de obras cultuadas como Babilônia (2000), Edifício Máster (2002), Peões (2004), Jogo de cena (2007) e As canções (2011) pensei em seu novo projeto, pois precisa fugir do "cotidiano insuportável", diz o mestre, com o seu humor negro habitual.


Colaboração de Rachel Almeida



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