Secretaria de Cultura

Talento multidisciplinar


26.01.2012    deixe aqui seu comentário


"Nem sempre gosto de ser apresentado como um sambista. Na maioria das vezes, é uma maneira de menosprezar um autêntico compositor de música popular, que é o que de fato eu sou". Esta foi apenas uma das brilhantes declarações do compositor, escritor, grande estudioso das questões afro-brasileiras, Nei Lopes, em sua concorrida participação na série Depoimentos para a posteridade, na tarde desta quarta-feira, 25/01, na sede da Praça XV do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, vinculado à Secretaria de Estado de Cultura.    
Na mesa, que teve a coordenação da pesquisadora Rachel Valença, vice-presidente do MIS, e dos convidados do entrevistado, o escritor Alberto Mussa, o músico e compositor Claudio Jorge, o jornalista Fernando Molica e o historiador Joel Rufino, Nei lembrou sua infância no Irajá em meio a 12 irmãos, a admissão em primeiro lugar na Escola Técnica Visconde de Mauá e sua formação na Faculdade Nacional de Direito, onde se envolveu com o movimento literário, o teatro, no Centro Popular de Cultura, e a política.  

"Meu pai, Luiz Brás Lopes, nasceu três meses antes da abolição da escravatura. Quando eu nasci, ele já tinha 53 anos. Ou seja, sou quase uma pessoa do século 19", brincou. "Irajá era uma cidade do interior nos anos 40, 50. Era carro de boi na porta de casa, quermesse na igreja, festas populares e um campo de futebol que funcionava como centro social".   

Nei lembrou ainda que a abolição ainda era algo recente, vivo na memória de seus pais, e que a religiosidade não era algo discutido diretamente por ainda não ser aceita: "Fiz primeira comunhão, assim como meus irmãos. Mas minha mãe tinha uma preta velha a quem a família sempre recorria no desespero". 

Não tão bom de bola quanto seus irmãos, péssimo soltador de pipa, Nei Lopes desde cedo se apaixonou pelo carnaval de Irajá, onde rivalizavam a Unidos de Irajá e a Irmãos Unidos de Irajá. Do intercâmbio que havia com escolas como Portela e Império Serrano, ele aprendeu rapidamente a sambar e a andar bem vestido. Ele era do samba. "Na minha primeira comunhão, eu pedi para a minha mãe uma roupa igual a dos meninos que desfilavam na Portela: jaquetão de quatro botões, calça boquinho... Juntei as duas coisas. Eu queria era sair na escola, mas não queria pecar". 

Nei contou que foi na Escola Técnica Visconde de Mauá que teve um convívio maior com o samba de forma inusitada. Muito colegas vinham de comunidades onde o samba era forte e, nos intervalos, improvisavam os batuques com instrumentos feitos com latas de manteiga de 10 e 20 litros com papel de saco de cimento. "Dava muito problema, já que o samba não era condizente com a escola, que, no entanto, admitia partidas de futebol de times de brancos contra pretos."  

O advogado Nei Lopes pouco atuou, apesar de ter tido um escritório de certo nome em Irajá. O samba já havia garantido seu espaço definitivo em sua vida desde 1963, quando desfilou pela primeira vez pelo Salgueiro. No início dos anos 70, já integrava a ala de compositores da escola. Ele já era razoavelmente conhecido por ter duas músicas gravadas gravadas por Alcione, em 1972. Em 1975, Nei conheceu seu principal parceiro, Wilson Moreira, com quem compôs clássicos como Senhora liberdade e Gotas de veneno, gravados por Clara Nunes. "Outro dia estava fazendo as contas e percebi que a Clara gravou nossas músicas em todos os seus discos de 77 a 82. Ela morreu em 83. Clara chamou a atenção para a nossa parceria e isso foi muito importante naquele momento".  Mas Nei também lembrou outros parceiros ilustres como Claudio Jorge, João Nogueira, Luiz Carlos da Vila e Moacir Santos. 
Nei falou de religião, de preconceito, de sua família e da vida no município carioca de Seropédica, além de sua atividade literária de quase um livro por ano desde 1981. Ao deixar uma mensagem final para as futuras gerações, se mostrou pessimista com o "ambiente cultural' atual:  "Do jeito que a coisa anda, com essa inversão de valores, com esse esvaziamento cultural, acho que esse meu depoimento pode não valer tanto daqui a 70 anos".




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