Secretaria de Cultura

Multimídia quebrando barreiras


15.08.2011    deixe aqui seu comentário


A laje é o novo quintal. A constatação parte de quem viu, de perto, as mudanças do espaço urbano das comunidades ao longo dos anos. Também serve como foco do trabalho de Adriano, mais conhecido como o fotógrafo AF Rodrigues, morador do Complexo da Maré. Na mira dos seus cliques, cenas do cotidiano, como churrascos, banhos de sol – devidamente acompanhados de piscinas de no máximo mil litros, além de varais multicoloridos. “O espaço nas favelas foi sendo ocupado e o local onde antes se dava a convivência, os quintais, foi sumindo”, explica Rodrigues. Ele faz parte de um trio, completado pelos fotógrafos Ratão Diniz e Jaqueline Félix, que compõem o eixo central do webdocumentário Rio de Janeiro – Autorretratos. Lançada recentemente, a obra é voltada para o dia a dia vivido por eles, que encontraram na fotografia não só uma profissão, mas um estilo de vida.


Sete vídeos, de no máximo oito minutos, contam a história dos três fotógrafos e abordam a paixão que a fotografia representa para o trio. Dirigido por Marcelo Bauer, a proposta vai além da imagem e o trabalho apresentado conduz o espectador por um passeio multimídia: “O webdocumentário integra o vídeo com a participação do público. Por não ter uma linearidade, a pessoa escolhe o que quer ver, no momento que quiser. Ela pode fazer comentários e nós usamos textos e tabelas gráficas para informar”, explica Bauer, sócio em uma empresa de cross mídia e um entusiasta do novo gênero documental, para o qual criou até um blog.


Divididos em quatro temas, como vida cotidiana e sonhos, os vídeos, feitos em pouco mais de uma semana, são reflexo de quase dois anos de tentativas, até que Marcelo conseguisse patrocínio para as filmagens. Enquanto isso, ele ‘namorou’ o projeto Escola de Fotógrafos Populares, do Observatório de Favelas.


Professor coruja


Com 35 anos de magistério em universidades, foi só há sete que Dante Gastaldoni - responsável por indicar os jovens para o webdocumentário - começou a trabalhar em favelas: “ Quando você sai da academia e entra na periferia, a coisa ganha uma nova dimensão. Lá você dá um curso de 540 horas e muda realmente a vida da pessoa, diferente de uma universidade”, explica Gastaldoni.


Os três fotógrafos escolhidos para o webdocumentário apareceram em sua sala de aula em 2006, o que ficou marcado na lembrança de Dante: “Era uma turma notável, que rompeu o lacre da excelência. Cada um tem um trabalho autoral importante”, explica o professor, esbanjando corujice.


Sem estereótipo


Foi o olhar atento de Gastaldoni que indicou Jaqueline Félix. Inspirada pelo trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado – que conheceu em uma palestra no Fórum Social Mundial de 2003, Félix retratou as colônias de pescadores da região: “Esses homens são heróis. A Baía de Guanabara está em estado de calamidade, e mesmo assim eles conseguem trabalhar”, explica ela, que agora aponta suas lentes para os pescadores do Posto 6, em Copacabana.


Já AF Rodrigues desenvolveu seu trabalho buscando mostrar o lado real da favela: “Quero mostrar o que é verdade e o que não é, aqui dentro da comunidade. Registro os trabalhadores, os estudantes, sempre com respeito ao fotografado. A visão de fora às vezes pode ser estereotipada”, avisa Rodrigues.




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