senha de acesso
27.07.2011 deixe aqui seu comentário
Senha de acesso propõe o desafio de uma pesquisa coreográfica a partir das relações entre corpo e memória sem ceder ao resgate de lembranças o status de condutor do processo criativo. Isso já estava dito no projeto inicial da pesquisa e fiz questão de ressaltá-lo sempre que possível ao longo desses quase três meses de residência no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro (Tijuca) e no Studio Casa de Pedra (sede da Esther Weitzman Cia. de Dança, na Gávea).
A relação entre corpo e memória que nos interessa nesta pesquisa é a das impressões, reações que se fazem presentes quando tentamos acessar nossas lembranças. Ou seja, mais do que o conteúdo dessas lembranças, é o que elas provocam em nossos corpos o material essencial da pesquisa, a tal “senha de acesso”.
Assim sendo, os primeiros encontros – chamo-os assim, pois não os entendo enquanto ensaios – aconteceram de maneira bastante despretensiosa, o que de fato acabou se tornando o tom de todos os outros. Conversamos muito sobre que memória era essa que interessava à pesquisa, lemos e compartilhamos referências diversas (livros, poemas, músicas, obras de arte).
Falei bastante sobre o livro de Daniel Schacter, The seven sins of memory, no qual o autor desmistifica a ideia de que a memória funciona como um baú onde as lembranças são guardadas intactas. E logo vieram outros autores em nosso auxílio, tais como Waly Salomão, e seu entendimento de memória enquanto ilha-de-edição, além de Clarice Lispector e David Lynch, que utilizam o ato da pesca como metáfora do processo criativo.
Memoráveis
Em suma, os primeiros encontros foram de muita conversa, algo um tanto incômodo para um processo criativo em dança. Pairava no ar a pergunta: “Quando afinal começaremos a dançar?”.
Confesso que já tinha essa clareza em mente, a de que a dança viria em seu momento. Precisávamos, sim, ser pacientes e deixar que o fluxo dos encontros e das leituras e discussões se desse e gerasse alguma semente mais movente. Precisávamos acreditar nisso.
Então, comecei a propor exercícios, experimentos que chamo de “memoráveis”, na tentativa de sensibilizar nossos corpos-mentes, aguçar nossos sentidos. Memoráveis são compostos de instruções muito precisas sobre o que e como fazer;; são tarefas a serem seguidas, completadas. Alguns visam à execução da tarefa ali naquele momento, na frente daquele que o concebeu (memoráveis cênicos). Outros são mais introspectivos e de caráter mais individual, para serem executados na rotina do dia a dia (memoráveis vivenciais).
Esvaziar a bolsa. Revelar os pertences
Memoráveis tais como #1 e #2 (hoje temos um banco com 13 deles) foram o ponto de partida para uma série de experimentações dentro e fora dos locais de ensaio, que possibilitaram a descoberta e a invenção dos primeiros movimentos na direção de uma possível dança.
Os mesmos memoráveis ainda foram os responsáveis por dois elementos que se fariam presentes na própria configuração coreográfica: a nocão de acúmulo/esvaziamento e a caminhada. O duplo acúmulo/esvaziamento está em praticamente todos os momentos da coreografia: nas palavras escritas no corpo da Monica [da Costa], nos sacos plásticos do Aluisio [Flores], nas sequências de movimento do Fábio [Honório], na minha manipulação do filme plástico e, até mesmo, nas caminhadas que dão início ao trabalho. A caminhada, hoje integrada à própria coreografia como metáfora das trajetórias daqueles indivíduos que estão em cena, foi (e ainda é) uma estratégia poderosa de interação com o entorno do estúdio e com os trajetos que cada um de nós percorre pela cidade.
A memória em senha de acesso não é necessariamente antiga;; é a de minutos, segundos atrás. É a da rua que se integra com a da casa, a dos momentos solitários associada ao caos da multidão. É até mesmo aquela que não existiu;; a que inventamos, e que de tanto contar, lembrar, afirmar, tornou-se verdadeira.
Como uma luva
Lembro-me de um dos primeiros encontros em que o Aluisio usou a metáfora de “sacos de memória” enquanto conversávamos sobre como armazenamos nossas lembranças e como as acessamos depois.
Passaram-se alguns encontros até que eu tomasse a iniciativa de comprar sacolas plásticas numa papelaria da praça e propusesse a ele uma sessão de improvisação. Nem lembro mais por que, mas naquela noite estávamos apenas os dois. Ele usou as sacolas de muitas maneiras diferentes, mas o “clique” só aconteceu quando, num dado momento, ele “calçou” uma delas como se fosse uma luva. Dali em diante, eu não consegui mais prestar atenção no restante da improvisação;; sabia exatamente o que lhe proporia em seguida.
O fato é que as sacolas tornaram-se um elemento-chave do trabalho. E o momento do Aluisio continua marcante e mágico, assim como quando eu percebi que ele tinha encontrado algo especial naquela improvisação. Ali a dança começou a dar sinais de que estava chegando.
Depois, no curso dos encontros, eu também me aproximei do mesmo material, o plástico, para construir o que se tornou o meu momento na coreografia.
O tema por vir
Houve, sim, um momento em que cogitei a possibilidade de não participar da pesquisa enquanto bailarino. Aluisio estava experimentando as sacolas plásticas, Monica estava sendo substituída nos encontros pelo Fábio, que, a essa altura, já tinha pistas por onde seguir criando. E eu só via razão em minha presença “do lado de fora”, alimentando e guiando, dirigindo mesmo o processo.
O assunto chegou a ser o tema de uma conversa com a orientadora Esther Weitzman. Em outras palavras, eu também precisei de uma certa dose de paciência. O tempo me mostrou onde eu deveria e poderia me inserir na coreografia.
Outra necessidade minha durante a pesquisa foi o esclarecimento constante de que a memória não era o tema de senha de acesso. A memória é a senha, quiçá, para o tema.
Decidimos não nos importar em descobri-lo. Essa nem deveria ser uma questão;; bastava saber que a memória era o ponto de partida, o estopim.
Hoje, depois de compartilhar ensaios com visitantes, percebemos alguns temas sugeridos pelos mesmos quando nos descrevem o que viram, sentiram: tempo, a própria memória, um certo sentido de transformação, questões identitárias, desejo.
Os próximos passos
Neste último mês demos início a uma fase de experimentação com vistas à composição coreográfica definitiva. Temos material bastante concreto, mas que ainda precisa de ajustes e aprofundamento. O fim da coreografia ainda está em aberto, por opção, para permitir que mais possibilidades venham à tona. Passos a serem conquistados no segundo semestre, quando estrearmos a coreografia.
http://www.cultura.rj.gov.br/artigo-banco/senha-de-acesso
