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Notícias de Paris


01.12.2009    deixe aqui seu comentário


Catarina chega amanhã. Pensei que nesses dias sem ela, sozinha em casa, sozinha na cidade, eu iria desbravar cada canto, escrever um livro inteiro, dois até. Pensei que iria visitar vários lugares, museus que não conheço e os que conheço também, pensei que em dez dias eu contaria dez novos amigos, todos pra vida inteira, teríamos uma conexão genial, a Cata chegaria e eu ficaria até na dúvida de quem apresentar primeiro. Nesse período eu me tornaria nativa, já teria o français na ponta da língua, sairia mais fácil do que o português, não me sentiria patinando na língua dos outros como sinto hoje, eu sacaria a chave da bolsa e andaria pela Rue des Tournelles cumprimentando garçons, vendedoras de ateliês, cabeleireiros. Já teria um novo corte de cabelo, vestidos novos, casaco novo, usaria delineador como fazem as meninas daqui no metrô, teria uma risada diferente, outras piadas.

Catarina não me reconheceria, me olharia muito espantada por não entender o que teria se passado comigo nesses meros dez dias em que não nos vimos, perguntaria como foi que mudei tão radicalmente, no que eu pediria para ela repetir, pardon, mon portugais est devenu comme si comme ça. Ela subiria as escadas com as duas malas e procuraria pelas minhas, que logicamente teriam sumido, qualquer resquício de que eu não nasci aqui teria desaparecido como num passe de mágica, a cicatriz de patinete no Humaitá e a camisa que comprei perto da casa dos meus avós, o sabonete e a escova de dentes. Teria terminado no mínimo três livros de cabo a rabo, ido à mostra da nouvelle vague na Cinémathèque, assistido a um balé no Opera Garnier, visto um concerto no Rex. Teria tantas novidades que mal seriam novidades.

Ela perguntaria o que eu conto de novo e eu comentaria de um mercado que abriu por perto, uma livraria que fechou na semana passada. Lembraria da vizinha maluca, a madame Doisneau, que no ano passado jogou um balde de água bem quando estávamos saindo do prédio, lembraria do natal de alguns bons anos atrás, aquele frio danado, quando tive que estudar para as provas do colégio. Quando um vizinho, para reclamar do barulho, atirou pedras e quebrou o vidro da janela daqui de casa. E aquele fim de tarde na Île de Saint Louis, em que sentei no meio-fio para assistir a uma dupla de músicos que recebia moedas dos turistas, já no fim do verão. Puxaria da memória as mais detalhadas lembranças que eu bem poderia ter tido se tivesse nascido outra.


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