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21/05/2013
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15/05/2013
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14/05/2013
Experiência fraternal
'Uma longa viagem' faz um retrato multifacetado da geração que sobreviveu à repressão durante os anos de chumbo
Entrevistas 05.04.2012 deixe aqui seu comentário
Autora de poderosas histórias inspiradas nos horrores cometidos durante a ditadura militar, como Quase dois irmãos, a diretora Lúcia Murat volta a um dos momentos mais negros da história brasileira recente com Uma longa viagem. O filme, um híbrido de documentário e ficção, que chega aos cinemas cariocas dia 11 de maio, depois de vencer o 39º Festival de Gramado, oferece um retrato multifacetado da geração que sobreviveu à repressão durante os chamados anos de chumbo, montado a partir da própria experiência pessoal da cineasta e de sua família.
A narrativa é conduzida pelas cartas de Heitor, irmão caçula de Lúcia, que deixou o país no final dos anos 60 e passou a década seguinte viajando pelo mundo, e nas quais relata suas experiências místicas e lisérgicas. Ao voltar do autoexílio, Heitor foi diagnosticado como esquizofrênico; durante parte do período em que o irmão esteve fora, a realizadora foi presa e torturada por causa de seu envolvimento com a luta armada. Depoimentos recentes de Heitor e dramatizações de trechos de sua correspondência, feitas pelo ator Caio Blat, em atuação premiada em Gramado, servem de contraponto ao fluxo epistolar. “Somo representantes daquele momento do Brasil, eu na política e o Heitor no desbunde”, diz Lúcia.
Podemos resumir Uma longa viagem como um retrato da geração que sobreviveu à repressão militar?
É tão difícil para mim resumir um filme meu... Ainda mais esse, que partiu de uma situação pessoal, e que sequer pretendia ser um filme. Teria de pensar agora com ele pronto e aí prefiro que vocês (críticos, jornalistas e espectadores) façam esse balanço. Mas se for para eu falar alguma coisa, diria que, a partir de experiências pessoais, o filme acabou retratando uma época, marcada pela resistência à ditadura e pelo movimento hippie.
Em que momento do projeto você decidiu tomar como ponto de partida as memórias de sua própria família?
Quase todo filme em que trabalhei foi um processo em que as coisas foram se definindo no decorrer do trabalho. Esse mais ainda, pois partiu de uma situação de dor – a morte de meu irmão Miguel, que aos 58 anos morreu repentinamente de um enfarte. Um pouco sem saber o que fazer e querendo voltar à época em que nós três (os irmãos menores de uma família de cinco filhos) se sentiam unidos e poderosos afrontando o mundo, perguntei a meu irmão Heitor se ele não toparia gravar umas entrevistas sobre sua experiência de viajante. Ele, também um pouco sem saber o que fazer naquele momento difícil, disse que sim, pois queria deixar gravado para os sobrinhos sua história e sua experiência de vida. Sabíamos que tínhamos vivido radicalmente algumas situações. Bem, sou cineasta e tenho equipamento profissional. Era normal para mim usar meu equipamento profissional para fazer esse registro. Mas até esse momento, era isso: um registro. Para fazer as entrevistas, resolvi retornar às cartas que durante 10 anos – o tempo que ficou viajando pelo mudo – Heitor escreveu para a família. Minha mãe tinha não somente guardado as cartas como tinha mandado bater à máquina por uma datilógrafa (era o tempo da antiga Remington), na intenção de que se fizesse um livro a partir dessas cartas. Na ocasião, estávamos todos saindo de um período muito difícil, não tínhamos condições de trabalhar com isso, pois a prioridade era sobreviver. Ao reler as cartas, mais de 30 anos depois, descobri o quanto elas eram interessantes e representavam um mundo que se foi, uma época de radicalidade. As cartas foram um roteiro para as entrevistas. Heitor, por sua vez, se mostrou durante as entrevistas aquilo que sempre foi no ambiente familiar: uma pessoa com uma inteligência e um humor impagável. Foi a partir da releitura das cartas e das entrevistas que comecei a pensar a fazer o filme. Ainda sob o impacto da morte de Miguel, acabei escrevendo um roteiro em que juntava todas as nossas experiências.
O foco principal do filme recai sobre Heitor, que hoje faz tratamento para esquizofrenia. Foi difícil – para ele ou mesmo para você - convencê-lo a falar para sua câmera?
Foi muito bom fazer as entrevistas. Nós nos sentimos mais unidos lembrando aqueles tempos. Sobre a questão da esquizofrenia eu diria que esse é um conceito da psiquiatria clássica. O que se percebe hoje é que o indivíduo é de uma singularidade absoluta. E não se pode reduzir uma pessoa a um diagnóstico. Muito menos isolá-lo, como se não fosse um indivíduo pensante. O que mais me encanta, todas as vezes em que passo o filme, é o quanto o Heitor cativa as plateias. O fato de ele tomar medicação psiquiátrica não impede que ele seja cativante. Talvez isso seja o mais interessante do filme, essa não redução do indivíduo a um diagnóstico. Poder trabalhar sobre o preconceito existente em relação a esse mundo. Qual o problema de ser obrigado a tomar uma medicação? Isso deve ser escondido? Porque não se esconde aquele que é diabético e é obrigado a tomar uma medicação permanente? Ou porque não me escondem, já que tenho que tomar diariamente um remédio para hipertensão, senão meu coração arrebenta? Não estou querendo negar os problemas, apenas não quero que eles sejam vistos envoltos numa camada de preconceito.
O roteiro foi construído a partir das cartas trocadas entre você e seus dois irmãos. Como funcionou essa ‘edição’, por assim dizer, de cartas?
Basicamente, utilizamos as cartas de Heitor. Foi muito difícil a edição pois as cartas são muito interessantes, bem escritas e poéticas. Tive que cortar muito. São três volumes. Numa primeira decisão, cortei em função do que ele falava nas entrevistas. A ideia era ir contrapondo as memórias dele com as cartas. Depois, já na edição (começamos o filme pela edição, depois é que filmamos), fizemos um novo corte. Finalmente, depois de filmar, fomos obrigados a cortar mais ainda, pois o filme estava muito longo. Mas o que decidimos de mais importante – isso já junto com o Caio – foi manter o texto original das cartas. Apesar de elas serem interpretadas, em nenhum momento mudamos as palavras para facilitar a leitura, ou por qualquer outra razão. Apenas cortamos partes. Achamos importante que aquele frescor da época existisse.
Até que ponto foi possível falar sobre a época sem expor demais a intimidade da família e da relação entre os irmãos? Onde você conseguiu impor limites?
A gente sempre impõe limites. Instintivamente. No roteiro, escrevi aquilo que a essas alturas achava importante para a construção dramática do filme. Apesar de ser um documentário, falado em primeira pessoa, o filme tem uma construção dramática. Na edição, foi um trabalho bem delicado. Mas aí contava também com o apoio do Mair Tavares, que além de grande montador, desde que conheceu o Heitor, há mais de 15 anos, quando começou a montar meus filmes, sempre teve uma grande admiração por ele. No fundo, todas as pessoas que trabalharam na cabeça desse filme – Dudu Miranda, meu sobrinho, que fez a fotografia, Mair, que editou, Julia, minha filha, que criou as projeções que ilustram algumas das dramatizações, Leo, grande amigo da Julia, quem fez a imensa pesquisa – eram pessoas que estavam jogando no filme sua afetividade.
Como em Que bom te ver viva, você recorre à dramatização como complemento do documentário. Qual é a função dessas inserções em Uma longa viagem?
Para mim, a questão era o que fazer com as cartas. Eram peças literárias. Como transformar em filme? Poderia ter feito um documentário padrão em que as cartas fossem lidas por um ator (ou até pelo Heitor) sobre uma colagem de cartões postais dos lugares por onde Heitor passou. Mas a minha ideia era de que o filme retratasse uma viagem poética, uma vivência. Eu não queria fazer um programa do Discovery Channel. Então, para fazer o arco dramático de um jovem naif que chega a Londres aos 18 anos e dez anos depois está na Índia, profundamente angustiado, eu achei que precisava de um ator. A partir daí, esse filme foi também de uma busca incessante por novas formas e, portanto, um desafio permanente para toda a equipe.
Como você chegou ao nome de Caio Blat para ‘interpretar’ seu irmão Heitor? Quais critérios você levou em consideração?
Eu e Caio estivemos para trabalhar juntos algumas vezes e, por outros fatores alheios a nossa vontade, isso acabou não ocorrendo. Sempre o considerei um dos melhores atores jovens do país. E uma pessoa muito ligada na história do Brasil. Quando, finalmente, conseguimos acertar nossas agendas nesse filme, foi um imenso prazer. E ele fez um trabalho incrível.
Sua filmografia é marcada por histórias sobre os anos de chumbo. Fazer esses filmes são uma experiência catártica para você, uma ‘sobrevivente’ da ditadura militar?
Alguém já disse que a gente escreve sempre a mesma obra, ou faz o mesmo filme, com diferentes personagens. É claro que ser uma sobrevivente faz com que alguns temas como violência, a diferença, a situação limite, a humanidade estejam sempre presentes no meu trabalho.
Colaboração de Carlos Helí de Almeida
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