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21/05/2013
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15/05/2013
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14/05/2013
Equilíbrio entre a tradição e o moderno
'O príncipe do deserto' revive um momento decisivo na história dos países da Península Arábica, no início do século passado
Entrevistas 12.04.2012 deixe aqui seu comentário
Era uma vez, um sheik árabe que entregou seus dois únicos filhos ao sultão rival como forma de garantir a paz entres os dois reinos pela longa disputa sobre uma faixa de deserto. Anos mais tarde, quando os americanos descobrem petróleo na região em litígio e um dos líderes locais decide tirar proveito das riquezas do solo, o conflito entre as tribos é retomado, obrigando os príncipes com dois pais a intermediar a querela. É assim, como um conto das Mil e uma noites, que o diretor francês Jean-Jacques Annaud recria, a partir do livro do escritor suíço Hans Ruesch, a formação da Arábia Saldita no filme O príncipe do deserto, que chega ao circuito brasileiro nesta sexta-feira, dia 13.
Protagonizado por Tahar Rahim (revelado em O Profeta, de Jacques Audiard), Antonio Banderas e Mark Strong, o novo épico do autor de O nome da Rosa e Sete dias no Tibet revive um momento decisivo na história dos países da Península Arábica, no início do século passado. O óleo americano põe em lados opostos Nesib (Banderas), emir de Hobeika, que quer usar os royalties do petróleo para criar escolas, bibliotecas e hospitais em seu pobre reino, e o austero Amar (Strong), sultão de Salmaah, que vê na chegada dos americanos um perigo à autonomia de povo e suas tradições. “Naqueles anos, as nações árabes, dispersas pela península, começaram a buscar um equilíbrio entre a tradição e o moderno”, explicou o diretor de 68 anos durante o Festival de Marrakech, onde O príncipe do deserto encerrou a competição.
De onde vem esse gosto por histórias épicas?
Acho que vem do fato de eu ter sido criado de forma muito tranquila nos subúrbios de Paris, numa casa com um pequeno jardim. Cresci sentindo necessidade de uma tela grande! (risos) Lembro que meus pais me levavam ao cinema aos sábados, e a tela era vasta! Maior do que qualquer outra coisa no mundo que eu conhecia. E nela havia uma história que me transportavam para outro mundo. Quando entrei para a faculdade de cinema, meus colegas queriam assistir aos pequenos dramas íntimos franceses; eu preferia ir ver os épicos de Eiseinstein e Kurosawa! Não mudei desde então. Épicos geralmente envolvem desafios logísticos e técnicos. Também demandam muito dinheiro.
O que é mais exaustivo para o senhor, filmá-los ou encontrar financiamento para seus projetos?
Sempre gostei de fazer meus filmes, fisicamente falando. Adoro levar minha equipe e meus atores para o topo de uma duna, olhar para o infinito e ouvir eles dizerem: “Uau!”. Todos os meus filmes foram muito caros, e todos tinham temas difíceis. Depois de um certo tempo, as pessoas veem meus filmes como grandes sucessos mas, no momento em que apareço com a ideia para eles, o que eu ouço é: “Quem se interessará pela história de um urso?”, “Quem interpretará o urso?”. No caso de O nome da rosa, queriam saber quem se interessaria pela história de um monge do século XIV, protagonizado por um ator velho (Sean Connery), que já tinha sido aposentado do papel de James Bond. Com O príncipe do deserto foi a mesma coisa. Vinham me dizer: “Árabes não são muito populares hoje em dia!” (risos)
Mas o senhor acabou conseguindo a distribuição da Warner, o estúdio americano...
Estranhamente, em Hollywood há uma grande curiosidade pelo que está acontecendo no mundo árabe. Sinto que há muita gente lá que entende que há um problema de comunicação entre o mundo ocidental e oriental e que está na hora de entender um pouco mais sobre o outro para resolver problemas tão antigos. Os meus patriotas, os franceses, ao contrário, desligam a TV quando o noticiário mostra algo sobre a revolução árabe. Talvez porque estejam sendo massacrados por informações sobre o que está acontecendo no Oriente Médio. Eu também não entenderia a questão se não tivesse vivido em países de língua árabe durante meses, até mais de um ano, durante a preparação e filmagem de O príncipe do deserto. Convivi com aqueles povos, então tenho uma perspectiva diferente da dos franceses e das pessoas que não vivem lá, em geral.
A natureza é um personagem importante em sua filmografia, não?
Certamente. Aprendi a admirá-la e respeitá-la um pouco antes de colocar em prática meus conhecimentos adquiridos na faculdade de cinema. Eu era esse cara do subúrbio de Paris que virou um típico estudante francês, que aprendia latim e grego, e que um dia foi estudar cinema na Sorbonne e virou um intelectual arrogante. Pois bem, naquela época, existia um programa em que a França enviava formandos para trabalhar em suas ex-colônias. Fui mandado para os Camarões, onde fui ensinar cinema aos futuros cineastas de lá. Eu tinha apenas 21 anos, mas o que a África fez por mim naquela época foi impressionante. Ela abriu meu coração não só para a população africana, mas também para mim também. Eu me perguntava: “Por que entendo melhor essas pessoas aqui do que na de meus colegas na Sorbonne?”, “Por que me sinto mais feliz na companhia de um sujeito que vive numa cabana de barro do que com aqueles garotos pretensiosos da faculdade de cinema?”.
Na África, havia uma integração entre homem e natureza. A gente dirigia por quatro horas por estradas lamacentas, no meio de lugar nenhum e se impressionava com as árvores enormes, os gritos dos babuínos, os papagaios, a variedade de insetos... Enfim, esquecia de onde tinha vindo e comecei a entender a natureza universal do homem, que não somos diferentes das gazelas ou dos búfalos. Isso me impressionou muito, eu me via como uma pequena partícula na imensidão do cosmos. É por isso que gosto de me sentir humilde diante da natureza, ela me lembra de onde venho e quais são os meus instintos.
O senhor acredita que filmes possam abrir os olhos do espectador para outras culturas?
Sim, definitivamente. Mais até do que qualquer documentário. Os documentários nada mais são uma explicação intelectual de um problema. Mas, quando você vê um filme de ficção sobre um pequeno traficante do México e compartilha com ele suas emoções e suas aventuras por duas horas seguidas, entendemos um pouco melhor o México. Um documentário nunca o levará para esse mesmo lugar, naquele momento. Ficção, na televisão, inclusive, é essencial para entender os outros, o melhor instrumento de comunicação.
Colaboração de Carlos Helí de Almeida
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