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‘Editoras existem para dar poder às ideias’

Tradutor e editor do recém-relançado O meio é a massagem, livro híbrido de Marshal McLuhan, aborda a importância do pensador canadense para as transformações no universo da leitura

Entrevistas 28.07.2011 deixe aqui seu comentário

Julio Silveira está à frente da editora Ímã

Julio Silveira está à frente da editora Ímã  (Crédito: Thiago Barros/ Divulgação)

Considerado profeta, com décadas de antecedência, dos impactos cotidianos da era digital, o canadense Marshal McLuhan tem sido um pensador-chave nas reflexões da comunicação contemporânea. É dele o famoso axioma “o meio é a mensagem” e a expressão “aldeia global”, só para citar alguns exemplos de conceitos que se tornaram corriqueiros para definir características de nossos tempos. Além disso, as reflexões de McLuhan – que teria feito 100 anos em 21 de julho, se estivesse vivo - podem servir de aparato à observação dos novos caminhos traçados pelo mercado editorial.


Tendo isso em vista, a Ímã, editora que acaba de nascer, relança O meio é a massagem – não confundir com “mensagem” - livro-jogo ilustrado, publicado por McLuhan em 1967, numa parceria com o designer Quentin Fiori. A obra lança mão de colagens, citações e humor para abordar uma questão que intrigava o intelectual. “McLuhan escrevia sobre como a própria tecnologia da escrita e da imprensa determina nossa forma de compreender as ideias, através de padrões de reconhecimento, eliminando as outras formas de informação sensorial, como a audição. Isso é problemático, ou paradoxal: como você, através da escrita, pode desmascarar a escrita, pode transmitir a informação trans-escrita?”, descreve Julio Silveira, que traduziu e editou o livro. Além disso, Julio está à frente da nova casa editorial, que tem a proposta de “descobrir, explorar e implementar as novas oportunidades do diálogo criativo” surgidas com as tecnologias digitais. “As editoras têm que se dar conta de que não existem para vender os meios, ou seja, os livros, sejam impressos ou eletrônicos. Elas existem para formatar e transmitir as mensagens. Ou seja: para dar poder às ideias”, diz o editor, nessa entrevista.


Cultura.rj - 'O meio é a mensagem' - nem sempre bem compreendido, dizem os seus estudiosos - é o aforismo mais famoso de McLuhan, que depois foi a base para outras derivações, criadas pelo próprio. Uma deles,  'o meio é a massagem', é o título do livro que a Ímã acaba de lançar no Brasil. O que ele quer dizer?


Julio Silveira - Muito resumidamente, "o meio é a mensagem" comenta sobre a influência dos meios de comunicação na formatação da mensagem, dizendo que estas são determinadas por aqueles. Por exemplo, as especificidades técnicas da televisão impõem uma linguagem, código e comportamento aos programas. Quando McLuhan expande para "o meio é a massagem" ele está comentando que os meios, onipresentes em um espaço de "circuitação eletrônica", como internet, tevê por satélite etc, estão sempre exigindo nossa atenção e modificando nosso comportamento, impondo-se, supostamente para nosso prazer, ou massageando-nos. 


Cultura.rj - Apesar de ter se tornado um dos intelectuais mais celebrados dos últimos tempos, McLuhan é foco de muitas críticas. Há quem diga que seus livros são confusos e que o seu caráter visionário é mais tímido do que parece. Como o senhor vê essa divergência de opiniões?


Julio - A questão é que McLuhan escrevia sobre como a própria tecnologia da escrita e da imprensa determina nossa forma de compreender as ideias, através de padrões de reconhecimento, eliminando as outras formas de informação sensorial, como a audição. Isso é problemático, ou paradoxal: como você, através da escrita, pode desmascarar a escrita, pode transmitir a informação trans-escrita? Ele tentou solucionar esse impasse, usando colagens, citações, jogos, humor e até som, quando O meio é a massagem foi lançado em LP. Isso certamente soou heterodoxo ou hermético para alguns, mas o que ele queria era tirar-nos do nosso condicionamento que podemos chamar, entre aspas, sequencial de imprensa. Foi ousado e libertário, e nem sempre compreendido. 


Cultura.rj - McLuhan previu, de certa forma, que o novo aparato tecnológico iria transformar o consumo de conteúdo e entretenimento. Quais das previsões do pensador canadense podemos enxergar na dinâmica editorial de hoje?


Julio - De um modo amplo, ele fala como a informação e a autoria não vão estar mais contidas em uma trajetória autor-editora-leitor, reta e unidirecional. Quer dizer, mais pessoas vão ter acesso às ideias - blogs, midia social - e vão poder expressar-se, acrescentar sua visão e alterar as ideias alheias. Curiosamente, ele se entusiasmava com a então inédita tecnologia do xerox. Ele dizia que qualquer pessoa poderia pegar dos livros as partes que mais lhe interessassem, remixá-las e recompilá-las em um livro novo. "Qualquer um hoje pode se tornar autor e editor", ele dizia. Isso está acontecendo com a internet em uma escala infinitamente superior. Pense em fanfiction, ou em textos que viajam pelas mídias sociais, entre outros. 


Cultura.rj - O quanto o fluxo de fragmentos que compõe 'O meio é a massagem' acaba antecipando a forma de consumirmos conteúdo?


Julio - Ele falava da ubiquidade e da abundância de informações geradas pelos meios de comunicação já no fim da década de 1960, e dizia que tal profusão de informações levaria a leitores e espectadores que acessassem a informação de forma fragmentada, colaborativa, multifacetada e mutável. É o que estamos vendo. Pense no Twitter, curto e caleidoscópico.    


Cultura.rj - Todo o debate sobre o papel do livro em tempos digitais tem colocado em xeque o formato das casas editoriais como as conhecíamos. O que é uma editora hoje?


Julio - É uma questão justamente macluhaniana: as editoras têm que se dar conta de que não existem para vender os meios, ou seja, os livros, sejam impressos ou eletrônicos. Elas existem para formatar e transmitir as mensagens. Ou seja: para dar poder às ideias. As gravadoras não entenderam isso, insistiram em vender discos de plástico enquanto as pessoas queriam comprar as músicas — e quase acabaram. A Ímã parte dessa premissa: a ideia deve estar à disposição do leitor do jeito que ele quiser: capa dura, brochura, no e-reader, no celular, na midia social, fragmentada.


Cultura.rj - Apesar das facilidades e possibilidades do mundo digital, ainda é um ato de coragem abrir uma editora, não? Quais são os principais desafios desse processo?


Julio - Partimos de um mercado viciado, insistindo em usar uma fórmula criada nos anos 1980, época de crise, quando leitores e livrarias estavam descapitalizados. Eis o ciclo vicioso: editoras fazem tiragens altas só para manter consignações generosas, gerando um excedente de oferta, que leva a aceitarem grandes descontos, que leva a um aumento no preço de capa, o que afasta o leitor, o que diminui a venda, que leva a novas consignações agressivas. 


Cultura.rj - As redes sociais podem ser incorporadas à forma de se fazer literatura? 


Julio - Sim. Ler é um hábito social por excelência, embora seja feito sozinho. Quer dizer, todo mundo que se encanta por um livro quer comentar sobre ele com os amigos, ou quer sugestões de leitura. Os clubes de leitura fazem grande sucesso nos Estados Unidos, por exemplo. Porém mais do que servirem como boca a boca virtual, vejo as redes sociais como forma de interação entre leitores e autor — ou de leitautores, amigos espalhados pelo globo e imanados no Facebook, escrevendo novas obras. 


Cultura.rj - Outro título da Ímã é o Livro Livre - O que pode o livro digital. Tendo em vista os relatos que compõem a obra, como podemos definir, em poucas palavras, o que pode o livro digital, afinal?


Julio - Em poucas palavras? Não dá. Também não é possível em muitas palavras. A razão é que não se sabe. Ainda estamos presos à tecnologia impressa, “olhamos o futuro pelo retrovisor", como disse McLuhan. É por essa razão que os e-readers trazem páginas que podemos virar ou dobrar. Quando nos livrarmos desse paradigma, iremos explorar os recursos digitais, que vencem os limites físicos - de material, de tempo e distância.


Colaboração de Juliana Krapp



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