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O cinema do Rio Grande do Sul é homenageado no CCBB. Com 14 longas e 28 curtas lançados a partir de 2000, a Mostra Polo Audiovisual – MOPA acontece de 19/11 a 01/12, no CCBB Rio.

19/11/2014


Até 16/11, de 20h às 23h, acontece o 1º Festival da Canção de Vassouras, no centro da cidade, com premiação para o 1º, 2º e 3º lugar, além de melhor intérprete e música mais popular.

14/11/2014


Nos dias 15 e 16/11, às 16h, a Casa Daros apresenta a mostra gratuita Cinema Novo no Parque Lage, com exibição de Macunaíma e Terra em Transe. Distribuição de senhas uma hora antes na recepção.

14/11/2014


A peça Makunaíma, o Outro estreia no dia 20/11, às 19h30 no CCBB, pondo no palco uma divindade indígena mágica e transformadora. R$10 (inteira) e R$5 (meia). Até 18/1.

14/11/2014


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As paixões de Ana Arruda Callado

Escritora reconstrói o olhar feminino a partir de biografias de Adalgisa Nery e Lygia Lessa Bastos

Entrevistas 02.01.2010 1 comentário

Ana Arruda Callado

Ana Arruda Callado  (Crédito: Vânia Laranjeira)

Ana Arruda Callado, biógrafa de mulheres ilustres

Ana Arruda Callado é “uma mulher de sorte”. É o que a jornalista e escritora gosta de dizer quando avalia sua trajetória de vida, principalmente quando se refere aos 20 anos de união com o escritor Antonio Callado, o “intelectual-operário” – como definiu a companheira.

Ana e Callado compartilharam, além do amor pelas palavras, muitas paixões: a política, olhar feminino, o jornalismo e o Rio de Janeiro, em especial Jardim Botânico – onde Ana Arruda teve o privilégio de morar com a família.

Nascida em 1937, na cidade de Recife, Ana Arruda Callado veio para o Rio de Janeiro aos oito anos de idade. Formada em Jornalismo na Faculdade Nacional de Filosofia, Ana começou a trabalhar como repórter no Jornal do Brasil em 1958, quando ganhou o prêmio Herbert Moses por uma série de reportagens sobre a reforma agrária. E, no ano seguinte, recebeu a Menção Honrosa do Prêmio Esso, após escrever matérias especiais sobre a infância abandonada.

Ana Arruda também se dedicou a carreira acadêmica, trabalhou como professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) durante 14 anos, além de ter lecionado na Universidade Federal Fluminense (UFF) e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Atualmente é presidente do Conselho Estadual de Cultura.

Em entrevista ao Cultura.rj, Ana Arruda fala das mulheres fortes e politizadas que biografou, entre elas Adalgisa Nery, Maria José Barbosa Lima, Jenny, Maria Martins e Lygia Maria Lessa Bastos – a mais recente perfilada em Lygia, a recordista.

Por que escrever o perfil de Lygia Maria Lessa Bastos, Lygia – a recordista?
Ana Arruda Callado
– A Lygia está com 90 anos, corri para fazer o livro. Conheci a Lygia quando fui fazer a biografia da Adalgisa, ela meu deu um depoimento muito importante. Reinaldo Barros que me indicou a Lygia, mas eu inicialmente tinha a imagem que ela era um general. Eu tinha um preconceito ideológico sério em relação a ela. Só quebrei essa imagem depois de entrevistá-la. Ela é uma mulher fascinante e independente, foi amiga de Adalgisa – reza missa para ela todos os anos. Ela não quis escrever a própria biografia porque tinha medo de ferir alguém. Então, ela me disse: “Se outra pessoa escrever é diferente”. Atendi ao pedido dela.

Você escreveu biografias de mulheres fortes e politizadas: Adalgisa Nery, Maria José Barbosa Lima, Jenny, Maria Martins e Lygia Maria Lessa Bastos. É uma busca por sim mesma?
AAC –
Penso que um escritor só escreve por si mesmo. Quando comecei a procurar as “minhas mulheres”, fui atrás de pessoas que eram diferentes de mim. Mas descobri que era uma mentira.

Por que biografar mulheres?
AAC –
Primeiro porque elas não são mulheres espetacularmente famosas. Escrevo sobre mulheres comuns, mas que contribuíram para as artes. São mulheres ilustres. Tenho interesse em contar a história contemporânea do Brasil através de um olhar feminino. Sou patriota, quero redescobrir a história desse país.

Como é esse olhar?
AAC –
Vou responder a essa pergunta falando de algumas perfiladas. Por exemplo, Maria José Barbosa Lima, mulher do governador Barbosa Lima Sobrinho. Quando trabalhei com ele na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), eu via aquela mulher pequeninha e pensava: “Será que é uma dessas bobacas que ficam penduradas no braço do marido?” Não! Ela é uma mulher fortíssima. Ao lado – e não atrás – de um grande homem há uma grande mulher. Barbosa Lima não sabia de nada, era Maria José que administrava a família e as finanças. Fiquei fascinada com essa mulher. Entende a questão do olhar?

Como você chegou à escritora Adalgisa Nery?
AAC –
Eu vi Adalgisa uma única vez. Eu estava almoçando com Alberto Rajão -deputado estadual que foi um dos maiores informantes do Sol - quando entrou uma mulher com ar de rainha, olhar duro, um narigão. Rajão levantou e foi ao encontro dela. Depois perguntei se era a Adalgisa e falei: “Ela é velha, né?” Rajão respondeu: “É velha, mas é um tesão!” (risos) Foi o único encontro que tive com Adalgisa. (risos) Depois de muito tempo me interessei em escrever o perfil. Ela era uma mulher política forte, que foi casada com um homem fascinante, mas malvado: Ismael Nery. Samuel Wainer, que também era uma peste, disse que ela era uma mulher dura, quase perversa. Depois ela se casou com Lourival Fontes, o então chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do regime ditatorial de Getúlio Vargas. E ela adorou, atuou como primeira-dama do DIP. Em depoimento ao Museu de Imagem e do Som (MIS), ela disse que se casou com Lourival pela segurança dos filhos. Ela era sedutora, mas foi ele quem a largou. A carta que ela escreveu para Getúlio, reclamando de Lourival, é patética – não condiz com a inteligência dela. Ela encantava os homens, era amiga do presidente. A viúva do Portinari me disse: “Minha filha, que impressão que ela fazia nos homens! No meu marido também, viu?!” O Portinari não fez quatro perfis dela à toa, as pessoas se apaixonavam por ela. O poema do Drummond é perfeito: De Adalgisa, a lisa, fria / E quente e áspera Adalgisa / Numerosa qual Amor (Desdobramento de Adalgisa). Quem ficou chateado com meu livro foi o crítico Wilson Coutinho. Ele me disse: “Você escreveu o livro que eu queria ter escrito. Adalgisa decidiu minha opção sexual, quando eu a vi fiquei deslumbrado.” (risos) Ela não era adorável. Adalgisa era admirável, é outra coisa.

A biografia da escultora Maria Martins foi uma encomenda?
AAC –
Sim, foi uma encomenda. As pessoas diziam que ela era uma pessoa desagradável. Não gostei dela.

Por que escrever sobre uma pessoa desagradável?
AAC -
Porque vi uma exposição dela e me apaixonei pelas obras dela. Quando vi as esculturas fiquei fascinada. “Quem é ela?”, me perguntei. Mas nunca pensei em biografar. Depois da encomenda, passei a conhecê-la melhor. Ela também fascinava os homens, mas era diferente de Aldagisa. Maria concretizava as fantasias. (risos) As duas eram amigas do Getúlio Vargas, ele adorava se cercar de mulheres inteligentes. Elas também foram amigas da Frida Kahlo, eram mulheres poderosas.

O fato de ter nascido no Recife e mudar, aos 8 anos, para o Rio de Janeiro influencia sua produção jornalística e literária?
AAC –
Sim. Eu me sinto muito pernambucana, apesar de ter vindo muito nova para o Rio - minha vida inteira é o Rio, estou com 72 anos. Toda vez que volto ao Recife me sinto energizada com aquele cheiro, aquele mar sargaço. É como se eu ainda morasse lá.

E você morou numa fazenda...
AAC -
Morei em dois lugares lindos. Cheguei a morar dentro do Jardim Botânico, na Rua Jardim Botânico, 1008. A casa do Pacheco Leão, que hoje está restaurada. Como a família era muito grande e meu pai trabalha no Serviço de Economia Rural, o ministro ofereceu a casa. O Jardim Botânico era o meu quintal. Depois morei durante dois anos numa fazenda no Distrito de Morro Grande, em Araruama. Por esse motivo eu não fiz o curso primário, fui alfabetizada em Recife. Sabe quem foi minha professora na fazenda? A professora de Paulo Freire, Eunice Vasconcelos. Só descobri isso quando Paulo Freire morreu e publicaram um artigo dele: Minha professorinha. Eunice já estava idosa e doente, então meu pai a levou para a fazenda. Foi uma maravilha, ela ficou dois anos com a gente.

Você tem irmãos?
AAC –
Tenho 15 irmãos. Meus pais criaram os 15 filhos, faço questão de dizer. Existe muito preconceito com o nordestino: “Os nordestinos têm filhos, mas morrem todos”. Não! Hoje somos doze, tenho muitos irmãos com mais de 80 anos.

Quais são as lembranças de infância?
AAC -
Nós brincávamos de biblioteca, de preencher fichas para fazer o empréstimo do livro. (risos) Uma maravilha. Na fazenda eu me escondia num telhado que ficava próximo a janela de um dos quartos. Sabe que até hoje sonho com esse telhado? Eu ficava lá quietinha lendo os “livros proibidos”. Toda semana meu pai chegava com um livrinho. Cazuza, do Viriato Correia. E os livros do Érico Veríssimo me marcaram muito, por exemplo, A vida de Joana D'Arc.

Você começou a trabalhar como jornalista aos 20 anos?
AAC -
Eu comecei muito cedo, aos 20 anos já era repórter do Jornal do Brasil. O que me interessava? Os temas esquecidos: reforma agrária e crianças abandonadas. Tenho o orgulho de ter trabalhado no Jornal do Brasil numa época em que se estava fazendo o melhor jornalismo do país. Na época, eu propus o tema da reforma agrária e foi um espanto porque o JB era muito metropolitano. O que mudou na reforma agrária? Nada. Está igualzinho, não mudou nada. O título de uma matéria de 1959: “Reforma Agrária: Todo mundo fala e ninguém faz nada”. Parece que essa frase foi escrita hoje. O interesse por esses temas tem a ver com minha família, meu pai foi um entusiasta do corporativismo. Ele foi diretor do serviço de corporativismo do Ministério da Agricultura. Quando foi inaugurada uma cooperativa em Cabrobó, fui enviada pelo Jornal do Brasil para entrevistá-lo. Foi uma emoção muito grande.

Você foi uma das primeiras mulheres a ocupar o cargo de chefe de reportagem. Fale um pouco sobre sua carreira de jornalista.
AAC –
Sim, trabalhei no Diário Carioca. E tem o Sol que foi uma aventura de adolescente, embora eu estivesse ficando velhinha. O Reinaldo Jardim era a cabeça do Sol, nós queríamos fazer um jornal novo para quebrar todos os padrões. Meu papel era fechar o jornal, amarrar aquela loucura. Tenho muito orgulho da minha trajetória de jornalista.

Como é a relação da internet com seu trabalho?
AAC –
Ainda lido mal com essas inovações. Mas utilizo a internet para pesquisa, isso é fantástico. Infelizmente ainda há muita irresponsabilidade na web, por enquanto é somente um grande meio de comunicação.

Como avalia a questão da não obrigatoriedade do diploma de jornalismo?
AAC –
Eu defendi sempre a obrigatoriedade do diploma. Mas, talvez, seja um pensamento antiquado. Porque agora só vai fazer o curso jornalismo quem realmente quer se dedicar ao jornalismo. Acredito que as empresas não têm interesse de contratar um leigo. Mas tenho medo do pensamento de que qualquer um pode ser jornalista, isso é a era da internet. Jornalismo não é enviar mensagens pelo celular, isso é fonte. Jornalismo é apurar a notícia e escrever.

No documentário A Paixão Segundo Callado, de Jofilly, você é um personagem-chave. Como foi essa relação de 20 anos com Antonio Callado?
ACC –
Sou uma mulher de sorte.

(silêncio. Ana Arruda se emociona ao falar de Antonio Callado)

ACC – Quando eu li Quarup fiquei empolgadíssima, impressionada. Eu trabalhava na Livraria Carlitos, no Leblon. O Antonio freqüentava essa livraria quando começou a jogar charme para mim. Fiquei pensando: “Ana, que horror! Parece aluna querendo namorar professor” (risos). Foi um encontro de vida, tivemos um relacionamento adorável. Nós casamos no civil, escondido. Mas o Zuenir (Ventura) descobriu e noticiou: “Casamento escondido”. (risos) Antonio me ensinou muito, ele era um “intelectual-operário”. Quando eu ficava chateada com uma pessoa porque ele fazia alguma coisa errada, ele dizia: “Não se chateie, não é maldade. É burrice.” Uma sabedoria. Eu me lembro dele todos os dias, mas não fiquei uma viúva triste. Ele aprovaria minha alegria de viver.

>>> Assista ao filme A Paixão Segundo Callado, de Jofilly, AQUI!


Colaboração de Ramon Mello



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