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Uma bienal de estreias e justas homenagens

Duas obras de Almeida Prado encerraram magistralmente a XIX Bienal de Música Brasileira Contemporânea. Foi uma bienal de estreias e de homenagens, mas que talvez precise rever o seu formato

Artigos 23.10.2011 4 comentários

Obra de Edino Krieger, 'Trio Tocata', em estreia mundial na XIX Bienal de Música Brasileira Contemporânea, executada pelo Trio Aquarius  (Crédito: Fernando Krieger )

Cia Bachiana Brasileira, sob regência do maestro Ricardo Rocha, no concerto de encerramento da XIX Bienal de Música Brasileira Contemporânea.
Cia Bachiana Brasileira, sob a regência do Maestro Ricardo Rocha, apresentando a "Missa de São Nicolau" de Almeida Prado no encerramento da XIX Bienal de Música Brasileira Contemporânea.
<strong>Trio Aquarius (Flavio Augusto, piano;Ricardo Amado, violino;Ricardo Santoro, violoncelo)  e o compositor Edino Krieger, após apresentação de sua obra "Trio Tocata" na XIX Bienal de Música Brasileira Contemporânea. 
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Quarteto Radamés Gnatalli em apresentação na XIX Bienal de Música Contemporânea Brasileira.

A Bienal de Música Brasileira Contemporânea encerrou belamente sua 19ª edição. Duas obras de José Antonio de Almeida Prado - o compositor homenageado - foram apresentadas, brindando o público com a mais pura sensibilidade de um dos maiores nomes da nossa música contemporânea. Foi uma Bienal com importantes estreias e outras homenagens a compositores da música erudita brasileira. Na noite de encerramento, a homenagem a quem no passado fez a história da nossa música foi surpreendente. Antes dos concertos, houve a entrega de cópias de gravações originais de obras, que foram executadas nos Festivais de Música da Guanabara e/ou nas bienais, aos familiares de importantes compositores. Obras que, depois de apresentadas, nem os compositores ou intérpretes tiveram acesso às gravações.  

Foram entregues nessa Bienal um total de mil gravações, um reconhecimento público da necessidade de preservação e difusão dessas obras pertencentes ao Centro de Documentação da Funarte. São obras que fazem parte da memória da música erudita brasileira do século XX, e que a Funarte tem a intenção de difundir em seu portal da internet. Assim, na última noite do evento, encontraram-se no palco Marina Lorenzo Fernandez, filha do compositor Lorenzo Fernandez; Gisele Santoro, viúva de Claudio Santoro; Marcelo Guarnieri, neto de Camargo Guarnieri; Jane Guerra Peixe, sobrinha de Guerra Peixe; e Mirela Siqueira, neta do compositor José Siqueira. Depois desse momento em que os parentes de compositores, produtores do evento e o presidente da Funarte, Antonio Grassi, também clamaram vivas à presença de Edino Krieger na plateia, um dos criadores da Bienal, iniciou-se o primeiro concerto da noite. Em estreia mundial, Paná-Paná III foi executada com precisão pelo renomado Quarteto Radamés Gnatalli (violinos: Carla Rincon e Andréa Carizzi, viola: Fernando Thebaldi; violoncelo: Hugo Pilger), e outros músicos, no acordeão (Marcelo Caldi), marimba (Leo Souza), celesta (Viviane Sobral) e piano (Josiane Kevorkian). Uma obra que faz parte de uma trilogia com peças compostas em épocas diferentes: em 1977, Paná-paná I, trio para flauta, oboé e piano; em 1982, Paná-paná II, trio para clarineta, violoncelo e piano. A terceira em 2010, Paná-paná III, para octeto instrumental, foi uma encomenda da Funarte e tornou-se a última obra composta por Almeida Prado, falecido em novembro desse mesmo ano. O nome faz referência à palavra “borboleta” no dialeto indígena, e a obra representa o processo de mutação e transformação do inseto, segundo o próprio compositor revela em carta a seu amigo Manoel Aranha Corrêa do Lago: “o ovo, lagarta, pulpa, e a transformação em radiantes cores e formas cromáticas. Por isso, a linguagem é cromática (série dodecafônica atonal e diatônica)”. 

Após a execução de Paná-paná III, entrou em cena a Companhia Bachiana Brasileira, sob a direção e regência competente do maestro Ricardo Rocha, apresentando a Missa de São Nicolau (Messe de Saint Nicholas), composta em 1985-6. Rocha dirigiu mais de 100 músicos entre coro, orquestra (com a spalla Constança Moreno, filha de Almeida Prado) e solistas (soprano: Veruschka Mainhard; contralto: Clarice Prietto; tenor: Ricardo Tuttmann; barítono: Marcelo Coutinho) em uma obra de fôlego, profundidade e de enorme significado religioso. Apresentada pela primeira vez em 1987, a Missa de São Nicolau foi executada pelo coro e orquestra da Saint Nicholas Cathedral, em Fribourg, Suíça, que encomendou a obra ao compositor. No Brasil, estreou em 2003, no concerto pelo aniversário de Almeida Prado, com a Sinfonia Cultura, porém, não se guardou nenhum tipo de registro. Sendo assim, a apresentação da obra nessa Bienal também pode ser considerada uma estreia, não só pelo fato de que nunca foi apresentada no Rio de Janeiro, mas também pelo inédito trabalho de revisão, realizado por Ricardo Rocha, sobre o manuscrito da partitura e a sua editoração feita anteriormente. Segundo Rocha, a obra é “muito interessante e com uma linguagem que parece atonal, mas é modal e muito, muito interessante mesmo, com passagens belíssimas e atmosferas espectrais. Suas cores e técnica composicional nos remetem de Guillaume de Machaut no século XIV a Messiaen no século XX”. Quem desconhece esse vocabulário mais específico da teoria musical, ao certo, terá dificuldades em transformar essas palavras do maestro em música. Mas quem ouviu a obra naquela noite no Teatro João Caetano entenderia muito bem o entusiasmo de Ricardo Rocha nesse breve comentário sobre a Missa de São Nicolau, de Almeida Prado.  


Esta 19ª edição da Bienal, a mais bem patrocinada em anos, teve a oportunidade de financiar compositores para a criação de obras inéditas. O concurso nacional para seleção de obras também contemplou prêmios em dinheiro. Uma valorização do trabalho do compositor erudito brasileiro de uma forma única em eventos desse porte no Brasil. Foi, sem dúvida, uma bienal de estreias, um total de 74 obras foram executadas pela primeira vez. Seguindo esse espírito de ineditismo e valorização de compositores e intérpretes, a produção do evento poderia ter também se dedicado a testar um diferente formato. Primeiro no que se refere à divulgação. Pouco se teve notícia sobre a Bienal em veículos de mídia de largo alcance e que não fossem diretamente dirigidos ao meio musical. Seria uma forma de encher mais as plateias, sempre com enormes vácuos. Talvez seja necessário repensar as estratégias de divulgação e difusão do evento para que se atraia um público mais numeroso. Deste modo, a Bienal poderá deixar de ser uma reunião de pessoas da área musical, quase exclusivamente, trazendo novos públicos no futuro.

Outro estranhamento é não se ter ainda transmissões online ou um site especifico, apesar das diversas facilidades no mundo da internet, e cujo alcance é incontestável nos dias de hoje. Peças únicas, estreias, encontros tão importantes e inéditos, que dificilmente irão se repetir, poderiam ter sido mais acessíveis a quem não está no Rio de Janeiro. Seria algo possível de realizar, operacionalmente, se houvesse iniciativa e interesse, já que troca de experiências entre músicos de todo o país é um dos objetivos do evento. O saldo geral dessa edição da Bienal é o mais positivo. Mostrou a força de nossos compositores, o talento de nossos músicos, desde as obras de Almeida Prado até as novas selecionadas pelo país. Mereceria mais comentários e divulgação justamente por isso: por fazer jus à qualidade e à inventividade de nossa música contemporânea. Que venha logo a 20ª edição, com mais estreias e alguns necessários ajustes.


Colaboração de Andrea Carvalho Stark



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