

Até quarta-feira, dia 16, estão abertas as inscrições para a oficina literária da Flip 2012. Nesta edição, o tema será Quadrinhos e Ilustração e as aulas serão dadas em Paraty por Laerte e Angeli.
15/05/2012
Nesta terça-feira, dia 15, às 20h30, Aderbal Freire-Filho e Eleonora Fabião estarão no Teatro Glaucio Gill, participando do Fórum de Núcleos de Trabalho Continuado. A entrada é gratuita.
14/05/2012
No dia 16/5, a psicóloga e biblioterapeuta Cristiana Seixas ministra uma palestra sobre as relações do homem com o meio na Biblioteca Pública de Niterói. A entrada é franca.
14/05/2012
O Festival Música Pra Todo Mundo, que apresenta músicos independentes do Brasil, apresenta os 30 finalistas que agora passam para a segunda fase do concurso. Vote.
10/05/2012
O cinema do desejo
Como Pedro Almodóvar conquistou o mundo com sua arte
Artigos 14.11.2011 2 comentários
Em 1975 morre o Generalíssimo Franco, depois de uma guerra civil que matou cerca de um milhão de pessoas (1936/1939), entre eles, o poeta Federico Garcia Lorca, e de 40 anos de uma ditadura fascista que levou ao exílio Picasso, Luis Buñuel e a maioria dos grandes artistas espanhóis do século XX. Nos anos que se seguiram, com o fim do autoritarismo, influenciados pelas manifestações libertárias de maio de 68, em Paris, e da cultura pop fervilhando na The Factory, de Andy Warhol, em Nova York, artistas plásticos, poetas, gente de teatro alternativo e jovens cineastas promoveram o que se convencionou chamar de Movida Madrilenha, cujo auge rolou entre 78 e 81, espalhando-se por outras províncias de Espanha, e de onde também despontaram – cada qual à sua maneira – os cineastas Bigas Luna, Fernando Trueba e Carlos Saura. Saído do interior do país – La Mancha/Calzada de Calatrava – de uma família do proletariado rural, à procura de liberdade, Pedro Almodóvar, um jovem de 18 anos, inculto, abandona o emprego na Cia. Telefônica e realiza na capital do país seus primeiros filmes experimentais em Super 8, no contexto que se constituiria essa revolução cultural. Desde esses seus experimentos, a questão da liberdade de expressão e, principalmente, do desejo, já são a marca predominante de sua linguagem anárquica e inquieta. Diga-se, de passagem, que Freud diagnosticara ser a neurose humana determinada pela repressão do desejo sexual e a contenção de suas várias formas de expressão. As ditaduras, todas elas, também se caracterizam pela repressão a toda sexualidade fora dos padrões convencionais. De Hitler a Mussolini, de Stalin a Fidel Castro. Não é à toa que a produtora que Pedro funda com seu irmão Augustín é El Deseo Filmes, onde realiza sua primeira película exibida comercialmente: Pepi, Lucy, Bom y otras chicas del montón , de 1980, seguida de Entre tinieblas, Mulheres à beira de um ataque de nervos, Labirinto de paixões, A lei do desejo, Matador até os dias de hoje. De que tratam seus filmes senão desen(volver) os conceitos estéticos da Movida, marcados por seu gosto “guajiro” (interiorano), primo pobre da cultura kitsch cultuada pela turma da Factory, pela música popular considerada cafona pela intelectualidade internacional, fotonovelas vulgares e HQs pornográficas e filmes como os de Sarita Montiel, melodramas estimulados pela forte presença da Censura autoritária que obrigou Buñuel a um exílio voluntário no México e depois na França, sendo ele também uma forte influência sobre a jovem produção cinematográfica espanhola. Mas o mais marcante nos seus filmes, além de uma fotografia, de uma direção de arte, de figurinos e de diálogos inspirados nesse mix de cultura pop, vanguardismo e “mau gosto” anárquico – numa Espanha coberta de vestes negras e casacos cinzentos, sintomaticamente o mesmo figurino/uniforme usado nas ditaduras do bloco socialista – é a inclusão dos personagens outsiders, dos michês, dos travestis, dos transexuais, dos cafetões e das putas – sobre os quais o cinema de Pedro direciona seus refletores, tirando-os da sombra e, através deles, revelando e discutindo as questões da sexualidade e do afeto sob um novo ponto de vista. A explícita homossexualidade masculina e feminina de muitos de seus personagens, o voyerismo – agora sobre o nu frontal masculino e não mais a visão falocrata e heterossexual que reduz a mulher ao exclusivo objeto de seu desejo –, freiras lésbicas e drogadas que criam tigres nos conventos – homenagem inconsciente ao dissidente cubano Cabrera Infante, autor de Três tristes tigres ? –, garotos de programa apaixonados por senhores de paletó e gravata e pais de família, travecos montados igualmente pais de filhos homens e mulheres livres, donas de seus narizes. Não é por acaso que Rossy de Palma, uma delas, consubstancia essa expressão com suas ventas que nos remetem a muitos retratos de mulheres pintadas por Picasso. Sem trocadilho, as mulheres de seus filmes são, quase todas, mulheres de Picasso. Em contraponto com essas mulheres, ao mesmo tempo fálicas e amorosas, capazes de chorar ou de matar por amor (Carmem Maura; Marisa Paredes; Ângela Molina), há a fragilidade dos belos homens (Antonio Banderas; Liberto Rabal) que também amam, choram, ou – incapazes de por à prova a realização de seus desejos – sequestram a mulher amada num filme que, contraditoriamente, fala de delicadeza e de sadomasoquismo ( Ata-me ). Essa maneira absolutamente pessoal e libertária contamina a narrativa cinematográfica, experimentando-se cada vez mais. Má educação cruza a história central com uma outra dentro dela, ao ponto de confundir-se a ficção que o filme conta com o filme que se está filmando. Já não há mais um limite entre o “real” e o ficcional, como no poema Formas alternadas , de Murilo Mendes: “Não sei onde a mãe acaba/e onde a filha começa”. Esse mesmo artifício foi usado por Buñuel em Ensaio de um crime (1955), de sua fase mexicana. Esse filme de Almodóvar é o primeiro a tratar da pedofilia na igreja católica no cinema da atualidade – em mais uma demonstração de que sua investigação sobre o desejo “ não tem limites, nem nunca terá”! Pedro Almodóvar conquistou o mundo com seu cinema. Recebido pela crítica no inicio com desdém e preconceito, autodidata que confessa ter tido dificuldades para compreender a técnica – decupagem, eixo de câmera, continuidade e o uso das lentes –, povoou o cinema contemporâneo com esses personagens da tribo de Lautreamont, Álvaro Retama, Tolouse Lautrec, Lezama Lima, Sade, Jean Genet, Pedro Juan Gutierrez, Hoper e o povo simples e ainda marginalizado das calçadas do mundo que, involuntariamente, através de seus filmes, constroem um novo tempo para a Humanidade. Um tempo no qual todos os desejos caberão no mesmo espaço. * O artigo faz parte do catálogo da mostra El deseo – o apaixonante cinema de Pedro Almodóvar
Colaboração de Luiz Carlos Lacerda, cineasta
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