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10/05/2013


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Da nostalgia à surpresa em 'O Mágico de Oz'

Do cinema americano ao teatro brasileiro, o musical encanta e faz refletir sobre nossas incursões no gênero

Artigos 14.09.2012 5 comentários

Malu Rodrigues e seu Toto, um dos 3 cães da raça Terrier que faz parte do espetáculo

Malu Rodrigues e seu Toto, um dos 3 cães da raça Terrier que faz parte do espetáculo  (Crédito: Divulgação)

Imagem clássica do espetáculo.
Dorothy, o Mágico , o Espantalho, o Leão e o Homem de Lata.
O Ciclone (Kostyantyn Biriuk) guardando o sono de Dorothy no campo de papoulas.
Miele como o Mágico de Oz.
Maria Clara Gueiros como a Bruxa Má do Oeste.
Chiara Santoro na cena do campo de papoulas

Estreou no Teatro João Caetano a temporada de O Mágico de Oz, a trigésima produção dos já aclamados Charles Möeller e Claudio Botelho, e produzido pela Aventura Entretenimento. O cenário já dava pistas do que viria. Um longo painel com um mapa e a palavra Kansas no destaque. Ao lado, estruturas representando relógios e bússolas. Durante o espetáculo, esse painel mudaria de acordo com as cenas, transformado por luz e projeções diversas para toda a ilusão que se desejava criar. Logo no início, ouvimos um agudo sopraníssimo da Chiara Santoro Gomes que, para quem a conhece, se torna inconfundível, e temos a presença do Ciclone, um personagem meio corifeu que vai ligando as cenas. Até a entrada de Dorothy com seu Totó em cena, fugindo da mulher rica má, que lhe quer levar o seu animal de estimação. São os primeiros momentos de Dorothy, no ambiente familiar e cotidiano de sua fazenda. 

A história da personagem que deseja voltar para a casa e rever a tia fascina gerações. A busca por um Mágico que resolveria seus problemas, enquanto, a todo tempo ela corajosamente enfrentava os seus desafios, tomando as rédeas de sua vida, e ajudando amigos que encontrou pelo caminho, resume as características de uma heroína. No diálogo final, o Leão pergunta a Glinda: “Mas por que você não disse a ela que poderia a qualquer hora bater três vezes o sapato para voltar ao Kansas ? E a Fada boa responde: ”Porque ela não acreditaria, ela tinha que viver por si mesma” . Sim, nunca acreditamos, e encontramos muitas Dorothys por aí vida afora, pois o que faz crescer é o ritual das várias aventuras e experiências, sendo elas carregadas de vitórias ou fracassos.


Essa é a leitura habitual, feita a partir do filme de Victor Flemming, estrelado pela jovem Judy Garland em 1939. Foi o longa que mais divulgou a história original, publicada no livro de L. Frank Baum, em 1900. Não tem como ouvirmos Somewhere over the rainbow sem lembrarmos de Judy com 17 anos, olhar lânguido no céu cinzento esperando que ele lhe dê a pista para um lugar além do arco-íris. Nada estranho também quando descobrimos que essa versão brasileira é a que foi apresentada pela Royal Shakespeare Company, considerada a mais fiel ao filme The Wizard of Oz, produzido pela Metro-Goldwyn-Mayer.


Torna-se muito difícil a tarefa de pensar e assistir à montagem brasileira sem lembrar da narrativa e do ritmo do filme. A comparação inevitável, mas o musical traz contribuições, semelhanças e diferenças. Inicialmente, um personagem que vai ligando toda a trama é a primeira surpresa. O Ciclone é um sátiro, um corifeu, uma mitologia presente que trafega pelos mundos real da menina que quer romper barreiras em rebeldia e o mundo de Oz, onde todas as aventuras e desafios são possíveis. Ele é o norte da ação, e nisso a escolha foi acertada tanto do ponto de vista dramatúrgico como na escalação do ator e bailarino ucraniano Kostyantyn Biriuk, que  toda vez que aparece, surpreende positivamente. Pierre Baitelli com seu Espantalho também foi outra boa surpresa dentre os trabalhos de atuação do elenco principal - faz uma criação totalmente original. Vê-se ali um magistral trabalho de ator, equilibrado em vários aspectos, cênico, corporal, vocal. Baitelli cria e coordena tão bem seus movimentos que realmente parece que não tem corpo, é mole, desarticulado e ao mesmo tempo equilibrado e firme em cena. A prosódia do caipira também lhe deu a chance de trazer a personagem para bem perto de nossas referências culturais.


O grande encantamento de Dorothy, sua inocência rebelde, é muito bem exposto por Malu Rodrigues. A voz de Malu também é perfeita para o gênero musical, é de uma clareza e registro muito raros, alcança notas altíssimas que surpreendem. Só acho que a voz do que não era cantado estava extremamente parecida com a impostação vocal da Dorothy dublada em português no filme americano. Refiro-me aqui ao ritmo: parece que a jovem atriz internalizou a musicalidade da fala da dublagem. Soou estranho. Acredito que ela poderia ter criado algo mais autoral. O Homem de Lata do ator Nicola Lama também surpreende na sua expressão corporal, mas o Espantalho, creio que por ter criado também uma prosódia para o personagem, foi mais impressionante. O Leão, muito bem criado por Lucio Mauro Filho, reflete, em alguns sentidos, o Leão do filme. Ambos com cores da caricatura gay. No filme, isso é muito sutil. No espetáculo musical brasileiro é algo levado ao extremo. Apesar de o espetáculo ser realmente para todas as idades, as cores tão exageradas do Leão, reforçando estereótipos em relação à homossexualidade, são desnecessárias no contexto e não fazem falta à narrativa. O fato de o Leão ser covarde nada tem a ver com a questão de sua homossexualidade.  
Luiz Carlos Miele dá vida e voz ao Mágico e somente sua presença no palco já compensa. Miele faz parte da música dessa cidade, mas muitos jovens não o conhecem. Muito merecidamente ganhou uma canção inédita, interpretada com muita sofisticação. Sobre a música, destacaríamos as versões para a If I Only Had a Heart (Se eu tivesse um coração), We’re Off to See the Wizard (Agora é pé na estrada). Essas ganharam muito na versão para o português, com pouquíssimas perdas. Maria Clara Gueiros, como a Bruxa Má do Oeste é apaixonante. Sua veia cômica trazida para a personagem faz da bruxa uma velhinha simpática e muito divertida, apesar das atrocidades que comete. É a responsável pelas maiores gargalhadas da plateia.


Não podemos deixar de citar o trabalho dos bailarinos e do ensemble. Nos momentos de canto coral, realmente somos transportado para um outro mundo. Especialmente na cena das papoulas, cuja coreografia de Alonso Barros embalada pela música ao vivo, tocada e cantada, nos lembra os grandes musicais do teatro de revista, com suas cores e movimentos por meio de enormes objetos e adereços. A ideia da cena do besouro, onde os bailarinos se movem sobre skates, cria um efeito mágico de movimento que se torna visualmente muito adequado à cena. Ponto alto também para a cena do sequestro de Dorothy, um balé muito bem marcado e ensaiado. Sem falhas. A cada cena de dança nos parecia um espetáculo que poderia nascer, tão prazeroso era assistir. Sobre esses elencos, não há como não destacar o trabalho de Flávio Arco-Verde, fazendo o macaco de estimação da Bruxa. Trabalho exato, é difícil uma personagem que não tem fala, somente grunhidos, marcar na memória. Helcio Mattos na cena da dança do Besouro também é um destaque.


Além disso, vale apontar as cores e a criatividade do figurino que encantam os olhos, as entradas e saídas aéreas, os adereços, o visagismo bem marcado para o teatro, a luz, a beleza do canto e da presença da Glinda de Bruna Guerin, a regência e direção musical de Marcelo Castro, o cuidado nos detalhes desde o foyer do teatro ao programa... E ,principalmente, a grande maestria de Charles Möeller e Claudio Botelho em equilibrar tantos núcleos de trabalho diferentes: um elenco de 35 artistas entre atores, cantores, acrobatas e bailarinos, mais 16 músicos, e muito mais se contarmos com produção e técnica. Não se pode deixar de sublinhar sempre o pioneirismo dos trabalhos da dupla, um na direção, outro na música. Esses artistas reinauguraram um filão que, há uns 15 anos, estava adormecido. Digo reinaugurar pois a montagem de espetáculos musicais aqui com origem em repertórios estrangeiros não é novidade. Em épocas mais remotas, pensando na relação de música e cena, tivemos a ópera, que era italiana, depois os musicais franceses, a opereta francesa, a mágica, os musicais de vaudeville de temas picantes, que Machado de Assis e José de Alencar acusavam de ter desbancado o teatro dito mais sério, dos espetáculos de revista, entre o final do século 19 e início do século 20... Em épocas nas quais não havia rádio ou TV era no teatro musical de revista onde nasciam os sucessos da música popular. Como Dorothy, eles também resgataram um certo tempo. Deste modo, bater o sapatinho vermelho três vezes é mais do que uma cena clássica final, é quase uma metáfora da nossa história. Não existe lugar melhor que a casa da gente – que o palco da gente.


Leia mais aqui e em Programação Cultural


Colaboração de Andrea carvalho Stark



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