Sou da fandanga de malafuá
Na estreia da coluna mensal 'A vida como ela era', uma homenagem a José Barbosa da Silva, o mais conhecido compositor brasileiro dos anos 20
16.04.2012 10 comentários
Sinhô morreu em 4 de agosto de 1930, a bordo da velha barca que fazia a travessia entre a Ilha do Governador e o Cais Pharoux (crédito: Divulgação)
Eis um desejo antigo. Não tanto quanto a admiração por Nelson Rodrigues, a quem tomei a liberdade de parafrasear para criar essa espécie de crônica (?), que combina vida real com ficção. Os fatos e principais personagens aconteceram de verdade. Os cenários, muitos ainda resistem, às vezes com outros nomes. Os coadjuvantes são tipos cariocas que você certamente vai reconhecer. Mas como não estávamos lá para ouvir as conversas, os diálogos se inspiraram em tudo que li e ouvi ao longo desse romance que vivo com o teatro, a história e a música: livros, canções, biografias, poemas, teses, depoimentos, revistas, jornais. A ideia é homenagear não só Nelson Rodrigues em seu centenário, mas essa cidade e seus habitantes – célebres e anônimos - de todos os tempos e espaços.
Sou da fandanga de malafuá
A derradeira viagem
Quase fim de tarde do início de agosto de 1930. Falta pouco para a barca Sétima da Cantareira atracar no Cais Pharoux, vinda da Ilha do Governador. Ainda podemos ouvir trechos das conversas entre os passageiros. O primeiro pouso do Zepelin na cidade do Recife:
- Custo a crer que o Rio de Janeiro, capital federal, não tenha capacidade de receber um dirigível desse porte!
- E ainda falam em modernidade, Arquimedes!
A descoberta de um novo planeta, batizado de Plutão:
- E se não estivermos sós como imaginamos, dona Eulália?
- Não fala assim que me arrepia, Sebastiana.
A primeira Copa do Mundo de futebol.
- Perdemos de 2 da Iugoslávia, mas o Preguinho deixou sua marca.
- E daí, Tobias? Quem ganhou o certame foram os uruguaios.
O assassinato de João Pessoa, candidato derrotado à vice-presidência da chapa da Aliança Liberal do gaúcho Getúlio Vargas:
- Esse Júlio Prestes pode ter sido eleito - na base do cabresto como sempre -, mas duvido que vá governar. Sinto cheiro de revolução no ar!
- Vira essa boca pra lá, Aparício!
- Escreve o que eu estou dizendo, mulher: essa república café com leite está com os dias contados.
Desinteressado de política e particularmente da mulher ao lado que passara a viagem inteira se queixando pelos cotovelos dos seus modos, um homem cantarola baixinho a marcha vencedora do concurso carnavalesco da Casa Edison escrita por um mineiro de Ubá, Ari Barroso: Essa mulher há muito tempo me provoca / dá nela / dá nela / É perigosa / fala mais que pata choca / dá nela / dá nela...
De repente, um reboliço no interior da barca seguido de um grito aflito e feminino de alarme.
- Acode, gente! O homem está passando mal!
Logo, uma pequena multidão está formada em volta do corpo desfalecido de um caboclo magro e trajado com curioso capricho. O que um elegante, de punho lustroso nas mangas e chapéu Randal, de copa alta, estaria fazendo na barca da Cantareira?
- Deus me defenda! Ninguém faz nada???
- Ele está ferido?
- Bem ele não está, minha senhora – observa um passageiro, impressionado com o estado lastimável da vítima.
Abrindo espaço com um vigor desmesurado, um senhor toma a frente da situação.
- Afastem-se! Deixem o homem respirar!
- O cavalheiro é médico por acaso? – atreve-se a questionar a senhora deslocada pelo corpanzil do bruto.
- Mesmo se fosse, não poderia salvá-lo... – Tira o chapéu e anuncia. – Está morto.
O lúgubre veredicto se alastra entre os passageiros. Senhoras se benzem, curiosos se aproximam, outros se afastam, assustados. Súbito, alguém reconhece a vítima.
- É o Sinhô!
- Sinhô? Que Sinhô?
- José Barbosa da Silva, o rei do samba.
Quando a barca finalmente atraca no Cais, os últimos versos escritos pelo mais célebre dos compositores dos anos vinte percorrem a baía de Guanabara em lamentosos acordes vocais:
Cansei, cansei
Cansei de te querer
Pois fui de plaga em plaga
O além do além
Numa esperança vaga
E eu pude compreender
Porque
Cansei, cansei...
A despedida
Entra cambaleando e se escorando nas pessoas que lotam a capelinha do Hospital Hahnemanniano, no Estácio.
- Licença...Licença...Licença...
Nem precisa se esforçar para abrir caminho. Não bastasse as roupas encardidas e amarfanhadas, o bafo de parati abre um clarão por onde quer que passe. Quando finalmente se aproxima do morto, tão perto que os mais próximos temem pela estabilidade do caixão, brada a plenos pulmões:
- Morreu a alma cantante dessa cidade!
Alguns aplaudem baixinho. Outros se perguntam quem é.
- As ruas e avenidas estão de luto! O povo e o Brasil choram!
Baixa a cabeça e deixa escapar um soluço. Alguém se aproveita e tenta tirá-lo de cena, fingindo um abraço, mas ele se recompõe e, quase sussurrando no ouvido do amigo morto, chora a partida inesperada:
- Tremenda sacanagem, meu rei. Morrer assim, sem se despedir da gente... - Enxuga o suor e a lágrima no colarinho puído. – Mas eu não podia deixar você ir sem dizer, em nome de todo o povo brasileiro, obrigado, Sinhô! Você tocou o coração da gente e fez essa cidade mais feliz. – Após um novo e traiçoeiro soluço, o sujeito tamborila um samba de Sinhô na madeira do ataúde e solta a voz: Não se deve amar sem ser amado / é melhor morrer crucificado / Deus me livre das mulheres de hoje em dia / desprezam o homem só por causa da orgia...
Na pequena capela parece não caber mais ninguém. Ainda assim, não para de chegar gente. Vem dos morros, das planícies, do cais, do Mangue, da Cidade Nova. Gente dos ranchos e sociedades dançantes, dos sambas e choros, dos batuques e candomblés, dos botequins e teatros da Praça Tiradentes – todos desfiando lembranças e canções.
- Minha cabrocha, a favela vai abaixo / Quanta saudade tu terás desse torrão / da casinha pequenina de madeira / que nos enche de carinho o coração... – entoa o soldado, habitante do morro situado entre o Santo Cristo e a Gamboa, recordando o samba que Sinhô escreveu como um apelo às autoridades e ao Divino: nunca deixe de olhar por nós da malandragem e do morro da Favela. - Será que, sem ele, teremos o mesmo destino do Morro do Castelo? – Diante do silêncio, ele aperta os olhos e capricha na afinação: - Minha cabrocha, se a favela for abaixo / ajunta os troço / vamos embora pra Bangu...”
Ao ver-se subitamente cara a cara com a atriz Rosa Negra, tão perto que era possível aspirar seu perfume, esse ardente admirador da “Mistinguette Brasileira” muda de samba sem tirar os olhos cobiçosos da grande estrela da Companhia Negra das Revistas:
- Por que foi que tu deixaste nossa casa na favela / Não quero saber mais dela / não quero saber mais dela...
- O teatro sentirá falta de suas canções – comenta a pérola negra, que há apenas três anos gravara com Chico Alves o dueto “Não quero saber mais dela”. - Sinhô não era só o rei do samba; era também o rei das revistas.
- Perdi a conta de quantas vezes assisti a Microlândia – comenta um assíduo freqüentador das torrinhas dos teatros da Tiradentes. - Só para assistir Araci Cortes cantando e dançando Jura.
Morador da rua do Curvelo e poeta de “Libertinagem” e “Carnaval”, Manuel Bandeira recita baixinho, admirado com a beleza do verso:
- “O beijo puro na catedral do amor”.
- Tantos sucessos! Tanto cartaz! – exclama um repórter do Jornal do Brasil, invadindo as recordações com uma espécie de discurso. - Como é possível um homem aplaudido nas ruas, nos teatros, nos salões morrer assim, no mais completo miserê?
Incomodado com o substantivo utilizado pelo repórter, o vendedor de modinhas defende:
- Pelo menos partiu tendo saboreado o sabor da glória...
- Glória ingrata, meu amigo, já que não lhe trouxe nenhuma recompensa financeira. Parte como chegou: de mãos abanando. Bastaria uma ínfima parcela dos lucros que ele proporcionou aos editores de música para que em vida tivesse tido mais conforto. - Todos são obrigados a concordar. - Se não fosse a subscrição feita pelos amigos, a companheira sequer não teria como pagar o enterro.
Os olhos se voltam para Nair, “a viúva que não foi esposa”.
- Dez anos ao lado de um homem e não teve direito a nada – relata o jornalista. - Nem mesmo ao samba inédito que o compositor trazia no bolso para vender ao seu editor, misteriosamente desaparecido.
Quem é bom já nasce feito
A entrada de um grupo de mulheres vestidas de cores exuberantes rouba a atenção dos presentes. Em especial de um jovem casal que, encostado num canto estratégico, parece destoar do conjunto.
- Lá está ela, prima. De vestido carmim.
A espevitada senhorita fica na ponta dos pés, tentando gravar cada detalhe do figurino da estonteante mulher.
- Carmem, a mercadora do amor!
- Um dos grandes rabichos de Sinhô! Não é uma beleza? – provoca ele, piscando discretamente o olho para uma das damas da noite, que retribui o cumprimento tocando os lábios encarnados com o indicador. A prima percebe.
- Alfredinho...Se Leticia sabe dessas suas amizades...
Ele contra-ataca:
- O que diria titio se soubesse que a prima praticamente me obrigou a trazê-la aqui?
Ela não se dá por vencida:
- Pois não foi ele quem levou Sinhô para abrilhantar o sarau lá em casa?
- Como é? – estranha o primo, revelando o precoce pendor para a boemia. - Sinhô, o animador dos bordeis, das batalhas de confete, das festas da Penha e bailes da Kananga do Japão dando o brilho de seus acordes num palacete em Botafogo?
- Pra seu governo, circulava por todas as classes e desfrutava da intimidade de políticos, intelectuais e até de membros da realeza!
Alfredinho abre um sorriso debochado.
- Conheço a sua admiração pelo finado, prima Magali, mas amigo de reis?
- Não sabia? Os reis da Bélgica caíram de amores por ele quando vieram ao Brasil no centenário da Independência.
- A prima não se cansa de me surpreender. Mas, no que diz respeito a Sinhô, sou obrigado a reconhecer que a música foi uma amante que lhe correspondeu à altura.
- E como tocava! Tinha um ritmo envolvente, uma música buliçosa e era extremamente gabola. Parece que estou ouvindo aquela vozinha fanhosa desfilando seus dotes... - Ela fecha os olhos e parece ver e ouvir o compositor sentado ao piano da Casa Beethoven.
- O que quer, senhorita? O Brasil conhece de cor os meus versos, a cidade canta e assovia minhas músicas. E, apesar do que dizem as más línguas, nunca roubei samba de ninguém. Mesmo porque “samba é que nem passarinho: é de quem pegar.” A verdade, senhorita, é que a inveja é um fato que nunca tem fim. Mas nada temo: eu tenho uma tesourinha / que corta ouro e marfim / serve também para cortar / línguas que falam de mim... Meu santo é forte, princesa. Tenho o corpo fechado. Menos para as mulheres, de quem sou escravo. Vivo dominado por elas, mas – aviso às navegantes! – “sou de quem eu quero e não de quem me quer”.
- Gabola é apelido! – diverte-se o primo, tentando debalde ser o mais discreto possível.
- Semana que vem você me acompanha a uma festa nos candomblés?
Alfredinho arregala os olhos:
- Na casa dos tais macumbeiros?
- Babalaôs – corrige ela, falando baixo. - Mães de santo.
- Você é louca, prima? Titia me mata.
- Dizem que é uma gente muito festeira. Que as festas atravessam dias e noites. Bebida, comida e samba à vontade.
- Inútil tentar me seduzir com prazeres mundanos, prima. Eu não entro lá nem morto.
- Pior pra você. Não faz ideia do que vai perder.
- Você não teria coragem de pôr os pés num lugar desses sozinha, Magali – ele desafia.
- Teria. Mas qual é graça de ir só? - Beija-o no rosto e, antes de virar as costas, anuncia: - Vou tratar de arrumar uma companhia.
- Prima! – ele abafa o chamado, mas sai apressado atrás dela. – Magali, volta aqui!
Os herdeiros do samba
No botequim em frente à capelinha, chorões e sambistas tentam desvendar os segredos do futuro entre talagadas de Parati.
- Quem herdará essa coroa? Rei do samba?
Os companheiros de copo fazem suas apostas.
- Gosto dos bambas do Estácio. Ismael, Nilton Bastos, Mano Rubem, Edgar...
- Cartola da Mangueira. O garoto é bom.
- Pode ser. Mas tem um tal de Noel Rosa da Vila que anda prometendo...
- Branco no samba? – caçoa o parceiro que até então só ouvia. - E ainda por cima de Vila Isabel? – Abre um sorriso de poucos dentes. - Acho muito difícil.
- É bom de verso e de melodia – garante, puxando a caixa de fósforos pra ilustrar o ritmo: Agora vou mudar minha conduta / eu vou pra luta / pois eu quero me aprumar... - Os outros se contagiam e reforçam o vocal: – Vou tratar você com força bruta / pra poder me reabilitar / pois essa vida não está sopa / eu pergunto com que roupa / com que roupa / eu vou / ao samba que você me convidou ...- Começou bem – ele reconhece, varejando o cigarro na calçada lá fora, para logo depois lançar um desafio: - Vamos ver se ele tem fôlego.
* Fatima Valença é escritora, dramaturga e roteirista. Escreveu dezenas de peças - entre elas os musicais Nada além de uma ilusão, Pixinguinha, Elis, Orlando, Rádio Nacional, Carmen; dois livros (O crime da Avenida Passos - o Rio de Janeiro na década de 30 e O que é ser maestro, em parceria com o maestro Isaac Karabtchevsky)
Colaboração de Fátima Valença
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Belo texto sobre um compositor muito especial e desconhecido das novas gerações; informação em forma de crônica com diálogos teatrais nascidos da imaginação criativa da autora Fátima Valença.
17.04.2012 18:37 | Campinas, SP
Projeto interessantíssimo. Desenvolvimento criativo. Pesquisa impecável. Só poderia acontecer esse texto delicioso, de diálogos precisos que me transportaram inteiramente àquele universo.
Que venham outros escritos! Estarei de olho.
18.04.2012 21:51 | Rio de Janeiro, RJ
Texto delicioso.... faz a gente mergulhar no tempo e reconhecer cada personagem.... que venham muitos outros. Parabéns!
21.04.2012 17:35 | Rio de Janeiro, RJ
Viver é uma história, poder participar da vida de Sinhô é maravilhoso
Obrigado Fafa.
.
22.04.2012 11:37 | Rio de Janeiro, RJ
Parabéns Fafá! Curti muito o estilo da "espécie de crônica". Entrei no clima...
bjs
22.04.2012 19:16 | Rio de Janeiro, RJ
É muito bom saber pela internet , o que havia antes dos 'tempos modernos"...
14.05.2012 21:47 | Recife, PE
ANTONIO LAURO DE OLIVEIRA GOES
Li todas as crônicas. Texto ótimo, resgates importantíssimos para a cultura brasileira,passagens deliciosas. Já me comuniquei com a MaríliaMartins ,da rádio MEC.Estou aguardando o retorno.Marcaremos em encontro de negócios,certo?
Parabéns de novo, pela iniciativa e pela qualidade do trabalho.
Beijocas deste seu fã.
03.08.2012 08:41 | Rio de Janeiro, RJ

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