A vida como ela era: Os males do maestro Sebastião Cirino
Crônica mistura realidade e ficção ao resgatar a trajetória do músico, que quase se atirou dos Arcos da Lapa
14.05.2012 3 comentários
O compositor foi preso mais de 15 vezes por vadiagem (crédito: Divulgação)
Eis os anos 40 começando a por suas manguinhas de fora. Apesar da guerra que assombra o mundo lá fora, e do Estado Novo de Getúlio Vargas que assombra o mundo aqui dentro, a Lapa dos cabarés, dancings, cafés ainda ferve. Em suas ruas e becos esbarramos com malandros de terno de linho branco, chapéu panamá, camisa e lenço de seda. A navalha é “só pra impor respeito”. Homens que vivem do jogo, da proteção às casas noturnas e das mulheres de vida airada, que às vezes cometem o pecado de se enrabichar por seus algozes.
- Foi pra isso que você me tirou de casa, seu safado, ordinário?
Ela vem com tudo pra cima dele, sem medo de ser infeliz. Bofete, tapona, dentada, arranhão. Ele só se defende, com um meio sorriso no rosto. A plateia é grande e nunca se sabe quando é que os homens do coronel Etchgoyen - o chefe de polícia que cismou de “moralizar a Lapa” - vão dar as caras. Invadem clubes, pensões e casas de jogo, perseguindo e prendendo quem não anda nos trilhos, com especial predileção por prostitutas, malandros, boêmios e gigolôs.
- A festinha já começou e ninguém se lembrou da gente?
Eram dois. Cada um maior que o outro. Na mesma hora a desavença amorosa arrefece.
- Mas, doutor, dessa vez quem está batendo não sou eu.
- Algum motivo você deu pra ela lhe aplicar esse corretivo.
- Nenhum, doutor. Juro pela Nossa Senhora da Lapa.
Mal acaba de falar, leva um safanão.
- Não jura que é pecado!
- Não está mais aqui quem jurou...
- Chega de conversa – interrompe o mais forte, decidido a encaçapar o malandro. – Vambora.
- Não faz isso, doutor – implora a mulher, colocando-se na frente do malandro, como um escudo. - Sem esse homem, eu não vivo! – E, para surpresa de todos que testemunharam o arranco-rabo, tasca-lhe um beijo desvairado na boca.
Em meio a enxurrada de aplausos, vaias e piadinhas de toda sorte, uma voz se destaca:
- O que aquele louco está fazendo lá em cima?
Os olhares se voltam para o alto dos arcos da Lapa, onde um homem está sentado no chão de cimento, de cara pro Largo, com os ombros arqueados e as pernas abandonadas sobre o vão.
- Que diabo esse camarada está aprontando?
O colega suspira com enfado.
- Essa noite promete...
Tra-la-la
Fazia era tempo que Sebastião tentava convencer os policiais de plantão que, mesmo tendo se excedido no álcool, não era nenhum desocupado. Ao contrário. Tinha profissão. Apesar das dificuldades que estava passando, era músico – “pistonista, violonista, maestro e compositor” - reconhecido até no estrangeiro.
- Não gosto de laurear minha pessoa, mas muito me orgulha declarar que recebi do governo francês a Cruz de Honra de Cavalheiro de Educação Cívica.
- Não brinca ... – debochou um dos guardas.
- Fiz parcerias com compositores franceses. Minha composição Tra-la-la recebeu versos de Hèlene Orbechi e ficou famosa como – capricha no pronúncia - "macumba brésilienne".
- Não é que o crioulo arranha direitinho o francês?
Na delegacia, todos caem na gargalhada, inclusive o escrivão. O delegado consulta os registros.
- Seu Sebastião, não é a primeira vez que o senhor nos dá o prazer da sua visita. Escreveu não leu, entra em cana. Mas dessa vez o senhor se superou. Quais eram suas intenções? Se estatelar em plena Lapa?
- Passou pela minha cabeça, doutor. “Foi uma força qualquer que me impediu”.
- Nós – lembra o policial, rindo e batendo nas costas dele.
- Vai pra casa, Sebastião – despacha o delegado, querendo encerrar o assunto. - Teu mal é a cachaça.
- Tenho muito respeito ao álcool, doutor. Só bebo quando tenho motivos.
A dupla fardada não consegue prender o riso. Sebastião os encara com uma dignidade que assusta.
- Toquei nas melhores casas e no melhores conjuntos dessa cidade. Mas o Rio de Janeiro não tem mais lugar para mim. Nunca devia ter voltado.
O comissário começa a se irritar.
- E voltou por quê, se estava tão bom lá, em Paris?
- A guerra, doutor. Na Europa a coisa está feia. Aquele tal de Hitler está fazendo um estrago que só vendo...
- Pois aqui dentro, pelo menos até agora, a balança está pesando pro alemão – informa o policial. O colega abre um sorriso metido a esperto.
- Getúlio não é bobo: vai ficar do lado de quem der mais, quer apostar?
- Não foi só a guerra, doutor – confessa Sebastião. - A saudade também.
“Essa mulher é uma santa!”
Dezembro de 1939. É sexta-feira e faltam dois dias para o ano-novo. Depois de um dia inteiro de faxina em casa alheia, Julia está em casa, às voltas com as costuras prometidas para a noite do réveillon das freguesas. Ela ouve alguém chamando à porta. Larga a bainha do vestido de festa e sai arrastando as sandálias. “Quem será a essa hora?” Chegando no portão, quase tem um troço.
- Sebastião! Sebastião, é você, homem de Deus?
Ele abre os braços em festa.
- Eu, mulher! Voltei para ficar!
- Pensei que nunca mais fosse te ver... – Os dois se abraçam, ela chora. Ele beija os cabelos dela, o rosto, as lágrimas e, quando está prestes a beijar sua boca, sente o safanão.
- Quem você pensa que eu sou? – Ela enxuga as lágrimas com raiva. - Tira essas mãos de mim!
- Que é isso, Julinha, meu bem? É assim que tu recebe o teu marido?
- Como é que você sai daqui, dizendo que vai numa excursão relâmpago ao nordeste, e volta 14 anos depois?
- Passou tanto tempo assim, foi? Sabe que eu nem percebi?
- Pois eu contei cada minuto!
Ele abre um sorriso cheio de malícia.
- Tanto tempo e tu ainda não me esqueceu...
- Já você... Aposto que se perdeu nas saias da primeira vagabunda que cruzou teu caminho...
- E eu tenho olhos pra outra que não você?
Ela não sabe qual sentimento é maior, a mágoa ou a saudade.
- Se eu pego aquela Madame que te levou pra tocar naquele antro de vadiagem chamado Bataclan...
- Madame Rasimi? Não é que a danada, depois das apresentações em Portugal, nos largou lá em Paris ao deus dará?
- Tadinho de vocês... Aposto que arrumaram logo umas francesinhas pra se consolar.
- Você não avalia o sacrifício...
Ela se dana com a desfaçatez.
- Você ainda confessa? - Bate no peito dele com os punhos fechados. Ele segura as mãos dela com firmeza, enquanto se aproxima devagar, sentindo que talvez seja possível reverter aquele placar.
- Você não avalia a saudade que eu estou, morena ...
Ela começa a vacilar, mas ainda resiste.
- Custava ter mandado notícias?
- Meu amor, seu marido fez cartaz. Era um convite atrás do outro...Todo mundo querendo ouvir o teu preto...
- E nós aqui, no maior miserê.
- Esse tempo passou. Agora é tudo por minha conta.
- Não faça promessas que não pode cumprir...
- Julinha, tu não vê que eu deixei aquela joia rara que é Paris só pra te ver? – Envolve com os braços o corpo dela, que treme. - Com quem mais eu iria passar a última noite dos anos 30 senão com você, minha nega?
Cinco segundos são suficientes para a tomada de decisão.
- Comigo, agora, só se for pra sempre.
- E eu sou louco de te perder de novo?
Caprichosos da Estopa
Na delegacia, um foi espalhando pro outro e logo uma rodinha de policiais está formada, ouvindo sem querer acreditar, mas com a maior atenção, as histórias de Sebastião.
- E ela te perdoou?
- O amor remove montanhas.
- Essa mulher é uma santa!
O escrivão não se deixa seduzir:
- Abandonar uma mulher, já é covardia; mas uma filha?
- Essa foi mais difícil - reconhece Sebastião. – Quando eu embarquei a pequena tinha três meses. Agora vai fazer quinze anos...- A voz embarga. – E eu nem tenho condições de lhe dar uma festa.
Os policiais se entreolham. Dois deles avaliam: “Melhor que radionovela.”
- Olha, você vai me desculpar, mas que espécie de músico é você, Sebastião? Com tanto cassino, dancing, orquestra por aí?
- Todos já têm seu time. Depois, a essa altura, ninguém lembra mais de mim.
- Sebastião Cirino!
- Arturzinho? É você, menino?
Alguma ele tinha aprontado, já que vinha ladeado por dois policiais e tinha as mãos algemadas. Felizmente os pés estão livres para sambar enquanto canta: Dizem que Cristo nasceu em Belém / a história se enganou / Cristo nasceu na Bahia, meu bem / e o baiano criou / Na Bahia tem vatapá / Na Bahia tem caruru / Moqueca e arroz de auça /manga, laranja e caju...
- Onde é que o senhor pensa que está? - Refeito da surpresa inicial, o delegado engrossa a voz, tentando manter a compostura. Arturzinho se desculpa:
- A autoridade há de me desculpar, mas não pude controlar a emoção ao me deparar com o notável compositor de Cristo nasceu na Bahia!
Os guardas caem pra trás.
- Você é o autor dessa música?
- Dessa e de muitas outras - informa o animado Arturzinho que, nas festas de Momo, revela seus dotes rítmicos nos blocos e ranchos carnavalescos que ganham a cidade.
- Rapaz, cantei muito esse samba! Foi um dos maiores sucessos do carnaval dos anos vinte!
- 1927, para ser bem preciso – esclarece Sebastião.
- Por que não nos disse antes?
- Eu avisei, delegado: não sou de alardear meus méritos e triunfos ...
- Que não foram poucos – frisa Arturzinho, sentando-se na mesa do escrivão com a maior pureza. – Os Caprichosos da Estopa fizeram bonito nos desfiles dos ranchos e muito por causa dele, da sua música e do seu divino sopro. – Sebastião teria corado, se a pele fosse branca. – Quantas vezes passamos na frente do Ameno Reseda, do Flor de Abacate?
- Não muitas...
Arturzinho quase desanima:
- O que te atrapalha é a modéstia...
- E a cachaça – entrega o delegado. – Falando na diaba, devemos a ela o prazer da sua visita, Arturzinho?
- Rusgas de amor, doutor. Mas acredite: teria vindo antes lhe cumprimentar se soubesse que aqui encontraria mestre Sebastião Cirino, que eu abraçaria se os senhores fizessem a gentileza de me retirar essas argolas. – O delegado faz um gesto e os policiais, meio a contragosto, abrem as algemas. Depois de um rápido alongamento, Arturzinho parte para o abraço. - Rapaz, que saudade daquela revista! Não sei o que era melhor: as black girls ou a sua música.
Os olhos de Sebastião brilham de novo.
- “Tudo Preto”! Por que não pensei nisso antes?
A princesa e o plebeu
1945. O mundo comemora o fim da segunda guerra mundial e chora a morte de 70 milhões de pessoas. O Brasil dá adeus ao Estado Novo e Getúlio Vargas deixa o Catete depois de 15 anos no poder. Não por vontade própria, é verdade, mas porque, para os militares, o gaúcho tinha tomado tal gostinho pela coisa que só sairia na base do convite pessoal e intransferível. Então, sobem nos tanques e despejam o homem, que volta para os pampas sonhando um dia voltar nos braços do povo. Quem sabe o que nos reserva o futuro?
Dezembro. O país elege democraticamente um novo presidente, Eurico Gaspar Dutra, e Sebastião Cirino, depois de amargar momentos difíceis, está de novo de bem com a vida. Ele e os músicos do conjunto de negros que têm deliciado os frequentadores das festas e shows do Cassino Atlântico. Extasiados diante do mar de Copacabana que se derrama diante das janelas do imponente prédio no posto 6, eles vibram:
- Cirino, meu irmão, isso aqui parece um palácio!
- Digno de reis como nós!
- Falando em majestade, onde está a sua nobre aluna de violão, a Princesa?
- Maria Theresa d´Orleans e Bragança? – Sebastião aponta uma mesa à direita do palco. - Lá está sua alteza. Ao lado dos nossos amigos do high society: Mariozinho de Oliveira e Alberto Simoens, que a Lapa e o Rio conhecem como Bororó!
- Rapaz, por tudo o que esses dois fizeram por nós, merecem a apresentação dessa noite!
- Tem mais alguém nessa lista...
- Quem, Cirino? A Princesa?
- A Rainha!
Sebastião aponta a mulher vindo em sua direção. O conjunto saúda em coro:
- Julinha!
Ela se desmancha em sorrisos e dengos:
- Quem diria que o meu nego um dia faria parte da realeza?
- E adivinha quem vai ser minha rainha?
- Essa noite merece um brinde. – Um dos músicos eleva a taça. - Que esse momento de nossas vidas dure para sempre.
- E que o novo presidente só nos dê alegria: nada de acabar com os cassinos.
A cena praticamente congela, mas a reação, quando vem, é firme e unânime.
- Que ideia é essa?
- Não repete isso nem brincando!
- Vocês não leem as folhas? Dizem que a mulher do Dutra, dona Santinha, tem horror a jogo e não vai descansar enquanto o marido não acabar com a festa.
Após um silêncio arrepiante, Sebastião bate o martelo.
- Depois de tudo que eu passei? Ele não me faria uma desfeita dessas!
A apresentação da coluna A vida como ela era você lê aqui
Colaboração de Fátima Valença
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Viver o passado em suas cronicas é muito prazeroso.
15.05.2012 11:51 | Rio de Janeiro, RJ
Também estou adorando a série de crônicas!
Muitos boas e interessantes!
Quero mais!
30.05.2012 10:44 | Rio de Janeiro, RJ
O texto da Fafá é uma delícia. Bem escrito, mega bem construído, criativo.... enfim, tem todas as qualidades para ser lido e relido uma infinidade de vezes.
10.07.2012 10:48 | Rio de Janeiro, RJ

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